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A história fantástica de Juvenal que atravessou o Atlântico

Juvenal Mendes esteve 47 dias à deriva no Atlântico. Foi pescar um dia em Cabo Verde e atravessou o Equador, tendo chegado ao Brasil, fazendo o percurso de Álvares Cabral, empurrando pelos ventos e correntes que o salvaram da morte.

Depois de ter andado à deriva no mar durante 47 dias e de ter sido resgatado em Santos, Brasil, o pescador cabo-verdiano Juvenal Ferreira Mendes, só pensa no regresso à casa que pensava já não voltar a ver.

“O que eu quero é chegar ao pé dos meus familiares todos, meu bebé está com quase três anos, estou com saudade deles”, disse o pescador, de 52 anos, que tem 12 filhos.

Em entrevista à Lusa, no Consulado Honorário de Cabo Verde em São Paulo, recorda os dias em que viveu somente do que pescava à espera de alguém que reparasse no seu pequeno barco.

“A parte mais difícil foi quando vi o navio passar, fiz sinal, [mas]não me vê, nem me salva. Fiquei assim, mais ou menos desanimado”, afirmou, sobre as cerca de 15 embarcações que passaram por ele no caminho.

Juvenal Ferreira Mendes, nascido em São Tomé e Príncipe, mora na ilha de Santiago, mas pescava na Boa Vista quando se perdeu, há sete semanas.

O vento rasgou a vela e o vento empurrou a embarcação para o mar alto. Quando tentava regressar, o motor ficou sem combustível e ficou à deriva no meio do Atlântico,

Na última terça-feira, foi resgatado pelo navio Ouro do Brasil, de bandeira libanesa, a cerca de 300 quilómetros da costa brasileira, entre os Estados do Amapá e Pará, no norte do país. Na sexta-feira à noite, dirigiu-se ao aeroporto de São Paulo para apanhar o voo de volta para casa, com escala em Fortaleza, no nordeste brasileiro e deve regressar à Praia, em Cabo Verde, na noite de hoje.

Para comer, cozeu peixes na água do mar e bebia água da chuva. No entanto, nunca desistiu: “Tinha fé que ia ser salvo”, disse.

A volta de Ferreira Mendes a Cabo Verde foi financiada pela empresa brasileira representante do navio que o resgatou e atracou na cidade de Santos, litoral do Estado de São Paulo, na quarta-feira.

O pescador afirmou à Lusa que não sabia que estava no caminho do Brasil e nem contou os dias que ficou a um mar onde quer regressar em breve.

“Vou voltar a pescar, é minha profissão desde 14 anos de idade. Pesquei até agora e vou continuar a pescar”, justificou.

O cônsul honorário de Cabo Verde em São Paulo, Emannuel Rocha, afirmou que este não é caso único, já que as correntes fortes empurram as embarcações cabo-verdianas com facilidade.

O último caso, disse, ocorreu em 2004, com quatro pescadores (um não sobreviveu).

“Uma das lendas ou histórias de pescadores diz que Pedro Álvares Cabral estava a Caminho das Índias quando foi apanhado por essa corrente marítima, e acabou no Brasil”, disse Rocha.

O cônsul realçou que os pescadores experientes, que sabem que não devem tomar água do mar, apenas da chuva, e que conseguem se alimentar dos peixes no caminho, sobrevivem à travessia até o Brasil, que dura entre um e dois meses.

No Tarrafal esperou-se pelo pescador que “Deus fez regressar” com vida

A história do pescador cabo-verdiano resgatado depois de 47 dias à deriva no Atlântico, é o assunto de todas as conversas no Tarrafal, onde amigos e familiares acreditam que audácia do pescador foi premiada com um milagre.

Juvenal Ferreira Mendes, 52 anos, natural de Chão Bom, município do Tarrafal, na ilha cabo-verdiana de Santiago, desapareceu ao largo da ilha da Boavista no passado dia 03 de outubro.

Depois de 47 dias à deriva no oceano Atlântico foi resgatado a 18 de novembro por um cargueiro brasileiro com bandeira libanesa e desembarcou nesta quinta-feira no porto de Santos, no Brasil.

Depois de ter visto passar 15 navios sem conseguir que nenhum o detetasse, mal pôs o pé no convés do cargueiro “Ouro do Brasil” a primeira preocupação foi telefonar para casa, segundo contou à agência Lusa, a mulher Rosalina Marques Tavares.

“Estava em casa de um vizinho, quando recebi um telefonema. Nem percebi bem de onde era, só percebi que o Juvenal estava bem e ia falar. Não conseguia parar de chorar. Percebi que tinha aparecido, tinha sido resgatado por um barco grande. Não disse quando foi resgatado, nem para onde ia”, contou Rosalina, que saiu disparada para casa para contar aos três filhos que o pai estava vivo.

Só na quinta-feira ficaria a saber pela comunicação social que o marido estava no Brasil.

Mais de mês e meio sem notícias, Rosalina tentou manter a esperança de que o marido, com quem está há 25 anos, apareceria com vida, mas acabaria por ceder ao desânimo.

“Esperamos, esperamos e sempre tive muita fé que ele ia aparecer, mas depois de tanto tempo fiquei desanimada. Acordava todos os dias a chorar, desanimada”, conta agora mais aliviada por saber que Juvenal está de regresso a casa.

A chegada ao aeroporto da Praia está prevista para hoje à noite, mas depois de dias de sofrimento e incerteza Rosalina não tem coragem de fazer os 70 quilómetros que separam Chão Bom da capital para ir receber o marido.

“Não sei se vou ao aeroporto. O meu filho é que vai porque não me tenho sentido bem. Todos me dizem para ir, mas tenho receio de não aguentar e desatar a chorar”, disse, sublinhando que depois de mais de 50 dias já tinha “perdido a esperança de voltar a ver o Juvenal com vida”.

Conta que, como habitualmente, Juvenal saiu da Boavista num domingo e que avisou que chegaria nesse mesmo dia ou na segunda-feira a Santiago, mas na quarta- feira ainda não tinha regressado. Na quinta-feira foi dado o alerta à capitania da Praia, que depois de dois dias de buscas, declarou que o pescador não se encontrava no mar de Cabo Verde.

“Tive muito medo que lhe tivesse acontecido alguma coisa e estou muito contente porque ele apareceu. Deus é grande!”, acrescentou.

O barco, um bote com cerca de nove metros e uma pequena cabine, que permitia ao pescador dormir e cozinhar, perdeu-se, e agora é tempo de começar de novo para este casal – ele pescador e ela peixeira – que vivem do mar.

“Perdeu-se tudo, o barco, o motor? ao todo são mil e tal contos (cerca de nove mil euros) perdidos”, disse.

“Mas o importante é que ele apareceu e agora vamos trabalhar para tentar arranjar outro barco”, acrescentou.

Entre os pescadores do Tarrafal, há dias que circulavam rumores de que Juvenal tinha conseguido sobreviver à tempestade, à fome e à sede, durante os 47 dias que esteve à deriva no Atlântico, mas a notícia da chegada do pescador ao Brasil veio dar aos familiares e amigos a certeza do seu regresso.

Entre a comunidade de cerca de 200 pescadores, Juvenal era conhecido pela audácia com que enfrentava o mar em saídas para pescar cada vez mais longe e quase sempre sozinho.

“É um pescador conhecido e muito amigo de todos aqui da comunidade”, disse à agência Lusa Amaro Santos Rodrigues, pescador “de fim de semana” e antigo presidente da Associação de Pescadores e Peixeiras do Tarrafal, adiantando que o aparecimento do pescador são e salvo é motivo de alegria para toda a comunidade.

“Estamos muito satisfeitos e esperamos com muita ansiedade o regresso dele”, disse.

Adiantou que depois de tantos dias desaparecido, já quase ninguém acreditava no seu regresso, embora restasse ainda uma “réstia de esperança” por causa da sua grande experiência no mar.

“Havia entre nós uma pequena esperança porque o barco dele era grande e ele sempre levava para o mar muita comida e muita água. Fazia sempre pescas longas. Ia num dia e regressava sempre dois ou três dias depois”, contou.

Para Amaro Rodrigues agora é tempo de festejar o regresso do pescador porque não é todos os dias que alguém passa pelo que Juvenal passou e sobrevive para contar a história.

“Deus fez regressar um homem que praticamente toda a gente pensava que estava sem vida”, disse.

O desaparecimento de pescadores não é inédito em Cabo Verde, tão pouco o seu aparecimento após vários dias ou meses e em outros países, mas no Tarrafal não há memória de uma história assim.

Devido a escassez de peixe e ao número crescente de pescadores, na comunidade Tarrafal são cada vez mais aqueles que, contrariando as regras, arriscam ir ao mar sozinhos, percorrendo grandes distâncias em pequenas embarcações.

“Os lugares de pesca são muito longe e os pescadores põem cada vez mais as suas vidas em risco porque têm que encontrar algum sítio para fazer este tipo de pesca e vão pescar em outras ilhas”, disse à Lusa Emanuel Silva, representante da Associação de Pescadores e Peixeiras do Tarrafal.

Esse foi o principal problema de Juvenal, considera Emanuel Silva, adiantando que se ele estivesse acompanhado teria conseguido fazer alguma coisa quando foi apanhado pela tempestade no regresso da ilha da Boavista.

Segundo o responsável da associação, na comunidade há pelo menos 15 embarcações em que os pescadores vão ao mar sozinhos.

 

* O presente texto é uma republicação após ter sido editado pela primeira vez no site da Lusa Dias da Independência

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