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A privação da liberdade, “A Bola” e a preparação para a guerrilha

Privados de tudo no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, os presos políticos encontravam na solidariedade, fé, leitura e preparação física para uma eventual guerrilha a motivação para se manterem de pé.

Assim o explicaram à Agência Lusa três ex-presos políticos do regime colonial português que, na segunda fase do também conhecido por “campo da morte lenta”, no norte da ilha de Santiago, lutaram por manter os ideais, só abandonando a prisão no dia em que ela encerrou definitivamente, há 40 anos.

Em 2009, num simpósio sobre os então 35 anos do encerramento definitivo do campo, os angolanos Vicente Pinto de Andrade e Luandino Vieira e o cabo-verdiano Luís Fonseca, presos entre 1966 e 01 de maio de 1974, afirmaram-se confusos com o misto de sentimentos que encontraram no Tarrafal.

Tal deveu-se a reverem tantos e tantos amigos ao regressarem ao campo onde passaram alguns anos e que, assumem, mudou o rumo das suas vidas.

“Este sítio deixou-me recordações amargas mas também outras muito boas. Aquilo que sou hoje seria muito diferente se não tivesse passado oito anos no Tarrafal.

“Foi aqui que me fiz escritor, que escrevi o que considero o menos mau do meu trabalho literário”, disse à Lusa o escritor Luandino Vieira.

“Quando encontrei aqui estes velhos companheiros todos, além da certeza que já tínhamos de que tudo valera a pena, só a presença deles e o modo como nos reencontrámos foi como se tudo se tivesse passado ontem, a despeito dos 35 ou 40 anos”, acrescentou.

“Se, por um lado, foi um momento de muita emoção, por outro, foi um pouco natural. Depois daqueles abraços iniciais, era como se retomássemos as conversas do dia anterior. Só faltava dizer amanhã quem vai primeiro lavar os lençóis, quem varre. Isso foi muito reconfortante”, referiu Luandino Vieira.

Para Vicente Pinto de Andrade, preso no Tarrafal entre 1970 e 1974, um dos mais conhecidos nacionalistas angolanos, “a luta e o sacrifício não foram em vão”.

“Quando entrei aqui não tinha a certeza se sairia vivo para regressar ao país. Na altura em que chegámos aqui, a luta em Angola estava a atravessar algumas dificuldades. A minha perspetiva era ficar aqui muitos anos”, explicou.

“Além disso, não sabia qual a pena que me era aplicada, pois era uma medida administrativa. Depois fui castigado duas vezes, e estive na cela disciplinar. Hoje, ao regressar aqui, recordo-me dos meus companheiros que não estão cá e de todo o tempo que passámos de isolamento”, acrescentou, já emocionado.

“A parte mais dura foi a privação dos afetos. Ficávamos isolados. Não tínhamos a família. Recebíamos cartas esporadicamente. A privação dos afetos, da ligação com a família, foi o que mais me custou e foi o que mudou a minha vida”, esclareceu.

Luís Fonseca, detido três anos e meio no Tarrafal, depois de dois anos e meio na prisão civil da Praia, para onde fora transferido de um campo em Angola, salientou as “provações duras” por que passou, lembrou que o tempo era passado no meio de grande solidariedade entre os diferentes presos.

O ex-secretário-executivo da Comunidade dos países de Língua Portuguesa (CPLP) lembrou que, durante o período que passou no Tarrafal, se tornou o “redator” das notícias que elaborava a partir de um pequeno rádio que conseguira fazer entrar no campo, com a cumplicidade dos guardas, e as deixava escritas numa das retretes das casas de banho.

“O menu aqui não era muito variado. Lá conseguíamos sempre encontrar maneira de arranjar livros para ler, que a partir de certo momento passaram a ser proibidos. Conseguimos mobilizar alguns guardas que nos traziam a literatura que gostávamos. A partir de certo momento, conseguimos introduzir um rádio e eu era o redator das notícias”, contou.

“Era muito perigoso e tinha de o ouvir muito baixinho e deixava, no dia seguinte, o resumo noticioso na retrete para um grupo selecionado de pessoas. De manhã cedo, era uma fila interminável de gente”, lembrou, rindo-se, indicando que um dos maiores feitos foi terem transformado os guardas em “bons agentes secretos” e que, por isso, nunca foram apanhados.

Mas a preparação física era uma constante, lembra Pinto de Andrade, que se resguardava todos os dias em exercícios físicos, para manter a boa forma, ginástica que, corroborou Luís Fonseca, se pensava então que constituía a “preparação para a guerrilha em Cabo Verde”.

A “grande revelação” veio de Pinto de Andrade, que lembrou à Lusa que o jornal A Bola era lido avidamente no Tarrafal, naturalmente com dias e dias de atraso.

“Havia uma biblioteca, o que permitiu ler muitos autores portugueses. Foi uma maneira de ler A Bola, um passatempo muito agradável. Foi nessa altura que descobri que os jornalistas portugueses de A Bola escreviam muito bem. Era uma coisa que não se associava, o desporto e a política. Eu descobri isso e fiquei encantado. A linguagem literária que utilizavam era muito bonita”, concluiu.

 

* O presente texto é uma republicação após ter sido editado pela primeira vez no site da Lusa Dias da Independência

 

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