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A4 fez de Valongo cidade com “risco ao meio” e incentivou a competitividade

A autoestrada A4, que liga Trás-os-Montes à zona do Porto, é percorrida diariamente por milhares de veículos e vista como “fator de competitividade”, mas em Valongo, entre 1987 e 1990, chegou a ser chamada de “muro da vergonha”.

“Havia tensão” – é como descrevem atuais e anteriores autarcas o que se sentia à época. Em causa está o atravessamento do concelho por uma autoestrada que deu a Valongo, distrito do Porto, o título de “cidade de risco ao meio”.

Neste concelho, a obra, da responsabilidade da então Junta Autónoma de Estradas (JAE), começou em 1987 e terminou na década de 1990.

Quase meia centena de atas de reuniões de Câmara contam a história de uma empreitada que uniu contra si a população e todos os partidos políticos locais.219

Jacinto Soares tinha iniciado funções na Câmara de Valongo em 1982 como coordenador da Cultura, mas abraçou a pasta das obras de 1985 a 1989, quando era presidente o socialista João Moreira Dias.

“Ele conseguiu muita coisa com a coragem e a teimosia dele. Se Valongo não tivesse lutado tanto, eles [a JAE]faziam o que queriam e cortavam por aqui fora. Eles tinham o apoio disfarçado, ou não, do poder”, conta o ex-autarca sobre um projeto que, inicialmente, previa a construção de um muro com 762 metros, o tal “muro da vergonha”, como se lia em faixas colocadas pela população junto às obras.

É nas freguesias de Ermesinde, Valongo e Campo que a A4 “corta” o concelho e era exatamente no “coração” da cidade que os maiores problemas se levantavam, nomeadamente na zona do Susão, onde Moreira Dias chegou a colocar máquinas, ameaçando destruir a obra.

A 23 de agosto de 1988, o diário O Primeiro de Janeiro escrevia “Câmara de Valongo ameaça destruir obras da Brisa [concessionária responsável pela A4]” e em subtítulo lê-se “edilidade não teme confrontos com a GNR”.

No dia 29 do mesmo mês, o “Jornal de Notícias” dá nota de um comunicado da autarquia de Valongo, que “promete não deixar a população encostada ao muro”.

A ideia de construir um talude caiu por terra após várias reuniões e idas de Moreira Dias a Lisboa, bem como de concentrações junto aos estaleiros de obra, como recorda Jacinto Soares sobre uma época em que a Câmara estava “reunida em permanência”.

Em declaração de voto na reunião camarária de 28 de setembro de 1988, João Moreira Dias aponta: “Entendo que ao longo do processo negocial as partes envolvidas e responsáveis pela execução da referida autoestrada usaram de processos subtis, negociando sempre sob estranhas reservas, ora mostrando-se abertas ora dando o dito por não dito”.

Prosseguindo: “Entendo finalmente que o facto de várias obras, peças de projeto e até de modificações que se reconhece que estão a ser feitas pela Brisa e o seu não fornecimento à câmara para apreciação são a prova cabal de que se pretende um acordo com o Município na zona sensível do Susão para, a partir daí, se avançar com a execução da autoestrada a qualquer preço”.

“O muro ficava esteticamente errado e prejudicava o futuro daquela zona. Mas não foi só contra isso que se lutou. Uma das lutas maiores era que alargassem as passagens inferiores e superiores. Previa-se o futuro, a construção de casas”, explica Jacinto Soares.

Também o atual presidente da Câmara de Valongo, José Manuel Ribeiro, recorda essa época: “Falava-se nas escolas, falava-se na rua. Mas as pessoas não estavam contra uma via rápida, estavam contra o traçado”, descreve o autarca que, à data, tinha 17 anos e o hábito familiar de fazer a viagem Amarante-Porto.

“Demorava horas”, recorda, ao apontar que, “sem dúvida que a A4 veio dar a Valongo um crescendo de competitividade” e hoje, à distância de 30 anos, “é evidente”, diz, que a A4 ajudou, por exemplo, a conquistar a passagem de outras vias e transportes estruturantes como A41 ou a estação de caminho-de-ferro de Ermesinde, que é a quinta em passageiros a nível nacional.

José Manuel Ribeiro acrescenta, ainda, o facto desta via ajudar a promover o património concelhio, nomeadamente o Parque das Serras que está a nascer e cuja sede é em Valongo.

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