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Abílio Curto, o autarca modelo da Guarda que um matadouro levou à cadeia

O socialista Abílio Curto era visto como um autarca modelo, na Guarda, e o “presidente das aldeias”, quando um matadouro o levou à cadeia e o afastou da presidência do município em dezembro de 1995.

Abílio Curto, o primeiro autarca eleito na Guarda depois do 25 de Abril, desempenhou o cargo de presidente da autarquia até dezembro de 1995, altura em que foi detido pela Polícia Judiciária (PJ) na sequência de investigações no âmbito do caso conhecido como “Matadouro da Guarda”.

No processo do matadouro foram gastos cerca de cinco milhões de euros, mas o edifício, que nunca chegou a ser licenciado pela própria Câmara Municipal, não foi concluído, ficando a estrutura apenas pelas fundações, alguns vigamentos e paredes.

Em 2002, Abílio Curto (PS) foi condenado a três anos e meio de prisão, pelo crime de fraude na obtenção de subsídio, tendo a pena sido reduzida em dois anos devido a cúmulo jurídico e a título de perdão do Tribunal.

O ex-autarca beneficiou do perdão de dois anos de pena pela aplicação da Lei da Amnistia de 1995 e de mais um ano pela Lei da Amnistia de 1999.

Em maio de 1998, o antigo presidente da Câmara Municipal da Guarda também foi condenado pelo crime de corrupção passiva, no âmbito de um processo em que terá exigido a dois empresários locais, sócios de uma empresa imobiliária, 20 mil euros para emitir uma licença de utilização de um edifício na urbanização dos Castelos Velhos, naquela cidade.

Na véspera de Natal de 2006, o ex-presidente socialista, que foi dirigente nacional do PS e assumiu cargos de direção na Associação Nacional de Municípios, saiu da cadeia, após cumprir metade da pena de prisão no Estabelecimento Prisional da Covilhã.

Vinte anos após o afastamento de Curto da presidência da autarquia, Hélder Sequeira, ex-diretor do jornal Notícias da Guarda e da Rádio Altitude, lembra que a sua detenção causou “surpresa e estupefação” na cidade.

“Embora seja evidente uma certa distância temporal, deste facto ressaltam ainda as imagens de surpresa e estupefação na altura registadas no cidadão comum e, sobretudo, nos meios político-partidários, com a detenção do então presidente da Câmara Municipal da Guarda”, recorda à agência Lusa.

Segundo Hélder Sequeira, que atualmente é quadro superior do Instituto Politécnico da Guarda e se dedica à investigação histórica regional, Abílio Curto “era dos autarcas mais conhecidos e prestigiados a nível nacional, respeitado pelos órgãos diretivos do seu partido e com um trabalho político inquestionável, traduzido nos sucessivos êxitos eleitorais no concelho da Guarda”.

“Aliás, a simpatia que granjeou nos meios rurais e nas freguesias do concelho, que conhecia muito bem, funcionou como um eminente suporte de apoio sempre que apresentava a sua candidatura”, acrescenta.

Hélder Sequeira relata que em muitas povoações do concelho “essa memória da ação do autarca guardense ainda não se perdeu, até pelos melhoramentos que surgiram nessas aldeias no decorrer dos seus mandatos”.

“Abílio Curto marcou uma época da Guarda pós-25 de Abril, isso é inquestionável. E o processo jurídico por que passou não quebrou o vínculo afetivo com muitos cidadãos do concelho que o recordam como o ‘presidente das aldeias’, combativo, político hábil, paladino do seu partido que, pesem as contrariedades, nunca renegou”, concluiu.

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