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Abolição das fronteiras foi “machadada muito grande” para Vilar Formoso

A abolição das fronteiras, em 1993, foi uma “machadada muito grande” para Vilar Formoso, no concelho de Almeida, uma das principais entradas e saídas terrestres de Portugal.

A abolição das fronteiras naquela localidade do distrito da Guarda aconteceu na sequência da adesão de Portugal, em 12 de junho de 1985, à então Comunidade Económica Europeia (CEE), com o acordo Schengen entre Portugal e Espanha a ser assinado em 25 de junho de 1991 e a livre circulação a entrar em vigor no dia 01 de janeiro de 1993.

“A abertura das fronteiras foi uma machadada muito grande para Vilar Formoso”, diz à agência Lusa Joaquim Abranches, que naquela época desempenhava as funções de presidente da Junta de Freguesia.

Abranches, que atualmente é deputado municipal em Almeida, recorda aquele período com “muita mágoa e tristeza”, devido aos efeitos negativos que a decisão europeia originou para Vilar Formoso.

“Naquele tempo, aqui [em Vilar Formoso]havia de tudo. O dinheiro parecia que brotava do chão. Tudo rolava à volta da alfândega da fronteira”, lembra, referindo que o panorama foi alterado radicalmente com a entrada em vigor da livre circulação de pessoas e de bens.

O ex-presidente da Junta recorda que acompanhou de perto a situação originada pela abolição das fronteiras e diz que lhe custou imenso o problema causado aos despachantes.

“Existiam, pelo menos, dez despachantes oficiais, que moviam cento e tal funcionários, mais as famílias”, indica, referindo que, atualmente, estão naquela vila fronteiriça “dois ou três”.

Até 1993, Vilar Formoso também tinha “umas dez instituições bancárias”, que davam emprego a mais de uma centena de trabalhadores, e várias casas de câmbio, acrescenta.

“A abertura de fronteiras foi muito grave para Vilar Formoso e para o país também. Lembro, com mágoa, que, naquele tempo, Vilar Formoso tinha mais de quatro mil habitantes e, infelizmente agora, deve ter, dificilmente, dois mil. Por falta de alternativas de emprego, as pessoas viram-se obrigadas a sair daqui”, frisa Joaquim Abranches.

O antigo presidente de Junta aponta que o movimento comercial e de serviços também tinha efeito nas escolas: “Naquela época, a vila tinha duas escolas, com seis salas de aula, e um externato com mais de 500 alunos”.

“Era uma alegria, todo o cantinho tinha um comércio”, refere, apontando que também existia a Guarda Fiscal, que mobilizava muitos guardas e as respetivas famílias.

Com a abertura da fronteira, os edifícios da antiga alfândega e da Guarda Fiscal foram abandonados e encontram-se degradados.

Já o atual edifício da alfândega, além daquele serviço, acolhe um centro de promoção de produtos de ambos os lados da fronteira, instalado no âmbito de um projeto transfronteiriço.

No futuro, Joaquim Abranches teme que Vilar Formoso se torne numa “terra fantasma” com a construção da ligação por autoestrada entre a A25 (Aveiro – Vilar Formoso) e a autoestrada A62 (Salamanca – Burgos).

O responsável pede “um novo olhar do Governo e da União Europeia” para aquela localidade, para acautelar o futuro, ao mesmo tempo que defende a necessidade de serem reparados os danos causados em 1993.

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