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Águeda, entre o “fogo do Inferno” e o “dilúvio”

Há 30 anos, Águeda era marcada pela tragédia de um incêndio de grandes proporções que provocou a morte, em Castanheira do Vouga, de 13 bombeiros e três civis.

Poucos anos volvidos, a maior inundação de que há registo deixava a baixa da cidade submersa e os comerciantes desesperados com milhares de euros de prejuízo.

José Bismark, então dos Bombeiros da vizinha Albergaria-a-Velha, esteve nesse mortífero incêndio e na cheia centenária.

Hoje dirige a proteção civil distrital e o distanciamento temporal permite-lhe olhar para os erros e fazer uma leitura objetiva dos acontecimentos e da evolução operada no terreno em três décadas, que não é tranquilizadora: os meios de prevenção e combate melhoraram, mas os fatores de risco também se agravaram.

Há uma correlação entre os fogos florestais e as cheias do Rio Águeda, que a comparação dos picos de cheia após a ocorrência de incêndios comprova.

“Os meios de combate, a organização da proteção civil e bombeiros tiveram uma revolução em 30 anos. O bombeiro é mais conhecedor, mais técnico, há mais proteção individual, meios aéreos, máquinas de arrasto. Naquele tempo só havia os telefones fixos, os pneus eram rechapados, nunca se substituía um amortecedor”, compara.

Sobre o desastre de Castanheira, atribui a causa ao desconhecimento que existia na época.

“Sabemos hoje que nunca se pode estar a meia encosta, na “chaminé” de um incêndio que progride de baixo para cima. Apanha os bombeiros a meio, onde o calor e os fumos são mais intensos. As altas temperaturas queimam-nos, os fumos tóxicos fazem-nos perder a consciência”, explica.

Apesar da “revolução” no combate aos fogos florestais, o risco também aumentou exponencialmente em 30 anos.

O eucalipto substituiu o pinheiro na paisagem e a migração para as cidades e para o estrangeiro deixou a floresta ao abandono e quem ficou mudou de hábitos.

“Deixaram de limpar à volta das casas para acender fogões a lenha e fazer a cama dos gados. Temos matos e silvas. Houve um abandono da zona agrícola mais perto das casas. Aproximaram a floresta das habitações e ninguém limpa”, constata.

Gil Nadais, presidente da Câmara de Águeda, diz que são precisas normas mais impositivas para a autarquia atuar: “há prédios cujos donos ninguém conhece. O interesse coletivo tem de se sobrepor ao individual e quando não há um dono, ou quando esse dono é absentista, devíamos poder tratar desse terreno”.

O autarca defende que é necessário obrigar as pessoas a associarem-se para ter corta-fogos devidamente estruturados, em zona de minifúndio.

“Se é preciso fazer um corta-fogo com 100 metros de largura há muitas propriedades que não terão rentabilidade, mas essas estão a ajudar as outras. Tem de haver um mecanismo para resolver esses casos, que, no limite, deve ser impositivo”, advoga.

A autarquia vai fazendo o que pode, sobretudo no reforço dos meios de combate: “temos uma rede boa de pontos de água para os helicópteros, de que temos um estacionado em Águeda, e todos os anos melhoramos os caminhos”.

Aos fogos sucedem-se as cíclicas inundações, com tendência a agravar e que em 2001 tiveram o seu pico máximo. Somados os dias em que Águeda esteve inundada desde que há medições, a baixa da cidade esteve cerca de dois anos debaixo de água.

Já se tentou de tudo, desde um açude insuflável a montante ao reforço e alteamento das margens, à abertura de um canal, ao aumento do vão de pontes que obstruíam a água e mesmo à remoção de taludes para franquear a passagem do caudal.

São medidas mitigadoras, porque a baixa de Águeda está em leito de cheia e o problema vem da floresta das encostas da serra do Caramulo, cujo solo vai ficando impermeabilizado pelas cinzas de repetidos incêndios e não retém chuva.

“Fizemos as intervenções que os técnicos indicaram: desobstruímos o leito em Óis da Ribeira, fizemos uma ponte para a água passar com maior fluidez, abrimos o canal, que teve o seu efeito mas não resolve”, diz à Lusa Gil Nadais.

Em fevereiro deste ano, apesar do avultado investimento, a situação voltou a ser grave, segundo o autarca, que vai pedir estudos mais aprofundados sobre o fenómeno e soluções.

“Temos ruas que, mesmo sem o rio galgar a margem, começam a ficar inundadas pela rede de águas pluviais, porque estão abaixo do nível do Águeda”, adianta.

“Por muito equipamento que se tenha, e os bombeiros de Águeda têm-no, se conseguirem tirar 10 mil litros por minuto, isso é uma gota de água na inundação”, comenta José Bismark.

O responsável distrital da proteção civil reconhece que houve investimento de vulto e melhorias, sobretudo na prevenção e planeamento.

“Há uma monitorização que não existia na altura. Com o programa ‘Rios’ começámos a acompanhar o Águeda desde o Caramulo, medindo o caudal em diversos pontos, o que dá para fazer uma previsão com grande acuidade”, salienta José Bismark.

A nova barragem de Ribeiradio introduziu novos fatores que requerem adaptação, mas permite cruzar a informação com o rio Vouga, de que o Águeda é afluente, e prever inundações.

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