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ALBA sonhou produzir automóveis mas definhou com Abril

Quem, nos dias de hoje, passa pelo IC2 em Albergaria-a-Velha depara-se com pavilhões fabris meio arruinados da que foi uma das principais fundições do império colonial, as Fábricas Metalúrgicas ALBA.

Quase 30 anos depois da falência, continuam sem destino os escombros da fábrica de onde saiu o primeiro automóvel integralmente português e milhares de artigos de mobiliário urbano e utilidades domésticas, como bancos de jardim, candeeiros de iluminação pública, caixas de correio ou salamandras de aquecimento.

Gorado um projeto imobiliário para o local, a autarquia procura negociá-lo para o transformar em espaço museológico. Da ALBA resta a marca, resgatada por um descendente do fundador que a procura relançar, capitalizando o que sobra da notoriedade.

Uma rápida pesquisa na internet é o bastante para ter a noção do que foi a ALBA, não apenas como colosso industrial, mas também de uma presença que se estendeu à saúde, impulsionando dois hospitais, à assistência social, com a “Casa da Criança” e um bairro social, à cultura, com duas casas de espetáculos e mesmo ao futebol, gerando um clube.

Ao longo de gerações, a família Martins Pereira marcou o desenvolvimento da região e, em particular, de Albergaria-a-Velha, até ao colapso da empresa, que empregava ainda nos seus últimos anos cerca de 480 trabalhadores, absorvidos depois na maioria por outras unidades fabris da região.

“A fábrica vai abaixo porque houve a revolução do 25 de Abril e com ela desaparece o mercado grande que tínhamos em Angola. Por outro lado os ordenados aumentaram bastante e tornou-se muito difícil aguentar 480 trabalhadores, a quem o meu pai pagou sempre”, explica José Luís Martins Pereira (Zé-Lu), que acompanhou a agonia da empresa.

Apesar de se antever que a ALBA era insustentável perante a nova realidade se não fizesse uma reestruturação, o pai opôs-se à redução de pessoal e a empresa acumulou dívidas até fechar portas.

“O meu pai, se tinha os seus valores e se os defendeu, foi coerente com ele próprio, agora que criou problemas à própria fábrica é verdade também. Tirando um caso de furto, nunca despediu ninguém. Havia uma coisa em que era diferente de tudo o resto: o seu gabinete tinha sempre a porta aberta para todos e percorria de manhã os vários setores para se inteirar do que se passava e trocar impressões, porque, dizia, uma pessoa, por muito humilde que seja, sabe sempre alguma coisa que nós não sabemos”, recorda.

Cultura, inovação e negócio doseiam o ADN da família Martins Pereira, desde que o bisavô de José Luís criou a ALBA, como se vê pelo irmão Pedro que, com uma visão diferente da do pai, seguiu o seu próprio caminho, fundando a Larus, que hoje fabrica os produtos ALBA, depois de resgatar a marca ao grupo que adquiriu a fábrica no processo de falência.

José Luís ainda por lá trabalhou com os novos donos, assistindo ao desmantelar da empresa até acordar a rescisão, mas é na cultura que se tem distinguido como personalidade multifacetada. Ator, artista plástico, diretor de uma companhia de dança e fundador de outra, está ligado a vários projetos culturais em Aveiro e Albergaria-a-Velha.

É também um apaixonado por automóveis e foi com orgulho que recentemente conduziu o “ALBA”, que está no Museu do Caramulo, para participar num encontro de beneficência a favor dos Bombeiros de Albergaria.

Acredita mesmo que aquele carro, o único automóvel inteiramente português, poderia ter mudado o destino da fábrica, se tivesse avançado a produção em série.

“O meu pai não foi autorizado a avançar com a sua produção por pressão das empresas que comercializavam em Portugal os carros desportivos. Foi por isso que o “ALBA” foi registado como Fiat reconstruído e teve de ir à inspeção com o chassi da Fiat. Só depois lhe colocou o chassi e o motor que tinha construído, com duas árvores de cames à cabeça, dois carburadores duplos, dois distribuidores e duas velas por cilindro”, descreve.

Chegaram a ser construídos quatro “ALBA” e o motor português é objeto de um estudo científico do Departamento de Mecânica da Universidade de Aveiro.

Na mesma Universidade prepara-se também uma tese sobre a sustentabilidade e o impacto económico que teria tido a produção em série do automóvel inteiramente nacional, que os poderes públicos da época não autorizaram.

José Luís Martins Pereira não tem dúvidas: “foi uma pena não se ter feito”.

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