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Alfândega da Fé elegeu a primeira presidente de Câmara do Nordeste Transmontano

Quando terminou o curso de Medicina com o galardão de melhor aluna, Berta Nunes escolheu Alfândega da Fé para ser médica de família e, 25 anos depois, se tornar na primeira mulher eleita presidente de Câmara no Nordeste Transmontano.

Num panorama autárquico sempre dominado por homens, nas eleições de 2009 Berta Nunes deu a volta ao resultado e conseguiu convencer aqueles que nas anteriores autárquicas a tinham deixado a poucos votos da eleição por “medo de perderem a médica de família”, como recorda à Lusa.

Quando tomou posse pela primeira vez, aos 53 anos, a socialista vaticinava que, se estivesse dois mandatos à frente da Câmara, sairia já na Terceira Idade. Quase a terminar o segundo mandato, parece querer cumprir a profecia, pois já anunciou que vai candidatar-se ao terceiro e espera ganhar.

Em 2009, alguém lhe dizia que a partir dali é que iriam começar os problemas, o que se confirmou mal tomou posse no pequeno município com pouco mais de cinco mil habitantes e uma câmara das mais endividadas do País e a pior pagadora.

Embora esperasse dificuldades, diz que nunca pensou que “fossem tantas” e os dois mandatos têm estado centrados no reequilíbrio das contas. Ainda assim, assegura que não se arrepende do desafio.

O município recorreu a todos os programas de apoio e a autarca socialista garante que a “situação financeira está estável” e um dos indicadores é que quando chegou à presidência, a Câmara “demorava 900 dias a pagar aos fornecedores, agora demora 20”.

Há ainda pontas soltas, como uma empresa municipal para vender, mas Berta Nunes está convencida de que este ano “será o da transição” e que a autarquia “vai começar a ter folga para investimento”, a não ser que decisões nacionais tenham impacto nas receitas municipais.

Antigos utentes e outros continuam a procurar a médica na Câmara para colmatar falhas do centro de saúde local, onde foi responsável durante mais de 20 anos por um número de utentes equivalente a metade da população local.

Alfândega da Fé foi a primeira autarquia a disponibilizar transporte municipal aos doentes oncológicos do concelho para poderem ir a consultas e tratamentos aos grandes centros, quando Governo cortou neste apoio.

O município transmontano tem-se distinguido em programas de apoio à população maioritariamente idosa do concelho e a presidente não sente que o facto de ser mulher a tenha “limitado” ou “prejudicado” no exercício das suas funções.

“Consegui fazer valer sempre as minhas ideias, as minhas convicções. [Ser mulher] Não me impediu de ocupar o meu espaço e de estar nele perfeitamente à vontade”, afirma.

Ainda assim, não deixa de apontar a “forma paternalista, machista”, como a mulher continua a ser olhada, “como se fosse uma pessoa menos capaz, que necessita de proteção, que não é autossuficiente, que não sabe o quer”.

Ressalva, porém, que não se trata de nenhuma crítica individual, mas de “uma questão cultural do país”.

Berta Nunes é natural de uma aldeia de Santa Maria da Feira e espantou os colegas do curso de Medicina por, ao invés das ambicionadas “especialidades de ponta”, ter optado por exercer longe da confusão dos grandes hospitais.

Perdeu dinheiro ao trocar a Medicina pela autarquia, mas os propósitos políticos começaram a revelar-se logo que chegou a Alfândega da Fé, recém-formada, e foi eleita presidente da Assembleia Municipal.

Ao mesmo tempo destacava-se nas fileiras do Partido Socialista, “polémica e crítica”, sendo uma das poucas mulheres a “marcar posição” na política ativa regional.

Foi presidente da Concelhia do partido, vereadora e, desde os tempos de estudante, ativista em movimentos da faculdade, ecologistas e feministas.

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