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Alqueva tirou mais do que deu ao concelho de Mourão

O Alqueva era visto como oportunidade para o desenvolvimento de Mourão, no distrito de Évora, mas a construção da barragem “tirou mais do que deu” ao concelho, que ficou sem um terço da área, uma fábrica e uma aldeia.

“Mourão foi sacrificado em prol do projeto para o desenvolvimento do Alentejo e do país”, afirma o antigo presidente do município, o socialista José Santinha Lopes, em declarações à agência Lusa.

O ex-presidente da Junta de Freguesia de Luz e atual vereador do PSD/CDS-PP na Câmara, Francisco Oliveira, partilha da mesma opinião e diz desejar que “não se faça mais nenhum Alqueva, pelo menos desta forma, que afete pessoas e que mexa com casas e terras”.

A 08 de fevereiro de 2002, as comportas da Barragem do Alqueva foram fechadas, conduzindo à submersão de um terço da área do concelho de Mourão, no distrito de Évora, além de ter obrigado ao desmantelamento de uma fábrica de papel da Portucel e à mudança da velha para a nova aldeia da Luz.

A trasladação do cemitério da antiga aldeia, no verão de 2002, foi um dos factos mais marcantes, tendo levado “um ano a ano e meio a preparar”, como recorda à Lusa Francisco Moita Flores, que coordenou cientificamente o processo.

“Fizemos a transferência dos mortos, em dois meses, em circunstâncias muito difíceis, não só pelo trauma coletivo em que a aldeia vivia, mas porque teve de ser feito em condições meteorológicas terríveis, com temperaturas de 50 graus”, relata.

Moita Flores considera que, durante o processo, as pessoas reviveram “o luto de forma concentrada”, em que “havia a morte da própria aldeia, a morte dos mortos e muitos lutos à mistura, com profundos traumas e profundas mágoas para as pessoas”.

“Fica como uma marca, até das nossas próprias vidas, porque para nós também foi muito doloroso. Tivemos dias em que entregámos 10 mortos a cada família e é qualquer coisa que fica para sempre na nossa memória, nunca mais nos desvinculamos daquela aldeia”, conta.

José Santinha Lopes, antigo presidente da Câmara, reconhece que o desenvolvimento agrícola “está à vista de todos”, com “oliveiras semeadas, alhos semeados e girassol semeado” e que o problema da falta de água em anos de seca “deixou de existir”.

Contudo, Santinha Lopes considera que “há uma coisa que é difícil de pagar”, que é o “sentimento das pessoas” da antiga aldeia da Luz, além de que “não foram cumpridas muitas promessas efetuadas pela Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA)”.

Também Francisco Oliveira assinala que “foram prometidas muitas coisas” e que “até se cumpriram algumas, mas terminaram todas da pior maneira”, como as “deficiências de construção” na “nova” aldeia da Luz, que “ainda não estão resolvidas”.

O ex-presidente da Junta defende que a vertente agrícola também “ficou muito aquém”, referindo, por exemplo, que a freguesia tem 83 hectares de vinha e que levam “a uva para outro lado”, porque não construíram uma adega que tinha sido prometida.

Sara Correia, atual presidente da Junta de Freguesia de Luz (PSD/CDS-PP), destaca as “alterações a todos os níveis” que a mudança de aldeia provocou, que se refletem “na forma de estar de cada um e da comunidade”.

“Para a população, não valeu a pena. Eu admito que, materialmente, houve pessoas que ficaram melhor, mas essa melhoria não compensa tudo o que as pessoas perderam sentimentalmente”, frisa.

A atual presidente da Câmara de Mourão, Maria Clara Safara (PS), diz que “qualquer concelho, mesmo fora da zona do Alqueva, tem muito mais rega”, assinalando que “um terço do concelho ficou inundado” e que, mesmo assim, tem “menos benefícios do que outros”.

Sobre a Portucel, que “era o maior empregador do concelho”, com mais de 400 trabalhadores, lembra que “a fábrica foi desmantelada porque o local ficou submerso”, lamentando que não tenha sido feita uma nova unidade fabril, como prometido.

Mas “não são só constrangimentos”, reconhece, indicando que o concelho ficou com “potencialidades” ao nível do turismo e da agricultura, que, para já, estão a “ir muito devagar”, e com “boas acessibilidades e paisagens maravilhosos”.

Alqueva, na sua capacidade total de armazenamento, à cota de 152 metros, é o maior lago artificial da Europa, com uma área de 250 quilómetros quadrados e cerca de 1.160 quilómetros de margens.

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