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“Americanos” voltam cada vez menos para a Murtosa, onde deixaram as mansões

O concelho da Murtosa, junto à Ria de Aveiro, tem hoje um parque habitacional que é o triplo do necessário para os residentes, fruto do fluxo migratório para os Estados Unidos, cujo número de regressos tem vindo a diminuir.

“Temos uma população de cerca de 10.500 habitantes, mas fogos suficientes para mais de 30 mil pessoas, a maior parte fechados durante o ano, o que obriga a autarquia a um esforço acrescido”, contabiliza o vice-presidente da Câmara, Januário Cunha.

Há 30 anos, a Murtosa era “uma terra pobre de gente rica”, na caracterização feita pelo professor Jorge Arroteia, da Universidade de Aveiro, que na época estudou o caso específico daquele concelho no contexto dos fluxos migratórios.

“Terra pobre, despovoada pela emigração massiva para os Estados Unidos de pescadores, apanhadores de moliço e pequenos agricultores. No concelho ficava uma população de baixos recursos financeiros, com uma taxa de analfabetismo muito elevada e havia um conjunto de áreas muito pobres, como o Bico e toda a zona marginal à Ria, com exceção de Veiros e de Pardelhas”, descreve Jorge Arroteia.

Em contraste, segundo aquele académico, grandes mansões proliferavam no território e a agência local da Caixa Geral de Depósitos era, no país, a que mais recebia remessas dos emigrantes.

Januário Cunha, com trabalho realizado a documentar “para memória futura” os movimentos migratórios dos murtoseiros, reconhece que o município tinha insuficiências muito significativas.

“A população ativa estava emigrada, o que tem implicações muito sérias no desenvolvimento de qualquer terra”, diz, recordando que, no final da década de 1990 e só no estado de Nova Jérsia, “havia tantos murtoseiros como os residentes na Murtosa”.

A dinamização económica da Murtosa era uma miragem, apesar da ostentação das mansões “americanas”, dos dólares depositados e da animação local que começava na primavera, com a chegada dos emigrantes, que vinham tratar dos seus bens e cuidar dos familiares, mantendo-se na terra até às festas do São Paio da Torreira.

“Vinham, mas não regressavam, porque os Estados Unidos ainda tinham alguma capacidade de absorção de mão-de-obra, com condições de trabalho vantajosas, enquanto localmente, sem indústria para além da conserveira, o mercado de trabalho não existia”, explica Jorge Arroteia.

Januário Cunha adianta mais algumas explicações para a falta de investimento na terra: “tem muito a ver com o destino e a atividade no país de acolhimento, para onde foram trabalhar por conta de outrem, nos trabalhos mais duros, bem como com a idade do regresso, já em final de vida”.

“O projeto do emigrante era sair, arranjar o seu pé-de-meia e voltar para passar os seus últimos dias. Não era investir. Voltavam no final da sua vida laboral e entretinham os dias juntando-se no Largo de Pardelhas e da Igreja da Murtosa, recordando os feitos de cada um, à espera da sua hora”, completa Jorge Arroteia.

Tanto assim, que o cemitério local teve de ser ampliado para satisfazer “o último desejo de ser enterrado na terra”, mas o fenómeno tende a desaparecer com o reagrupamento familiar e a sucessão de gerações.

Os lusodescendentes, mais qualificados, constituem família fora da comunidade portuguesa e as memórias vão-se diluindo. “O que os prende à Murtosa?”, questiona Januário Cunha, dando conta que os herdeiros das tais mansões de que fala Arroteia não hesitam vendê-las, o que para os seus antepassados era impensável.

“Os filhos já não querem regressar e os netos muito menos”, secunda o professor.

Contudo, a Murtosa não estagnou assistindo-se à reanimação do concelho, mais uma vez por razões ligadas à emigração. Além dos esforços autárquicos para atrair novas empresas, uma vaga posterior de emigrantes, que teve como destino a Venezuela, tem estado a regressar e em idade mais jovem.

“Onde se vê investimento empresarial é sobretudo na restauração e hotelaria, ou na construção civil, de emigrantes que vieram da Venezuela. São pessoas que no destino tinham o seu negócio e acabam por trazer para cá o espírito empreendedor”, esclarece Januário Cunha.

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