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Arraiolos aguarda há quase 15 anos pela certificação dos seus tapetes

Arraiolos aguarda, há quase 15 anos, pela certificação dos seus tradicionais tapetes, considerados uma das mais ricas peças do artesanato alentejano com projeção internacional, por falta de regulamentação de uma lei aprovada pelo Parlamento.

“Se já anteriormente à lei se começavam a sentir alguns efeitos da não certificação dos tapetes, nomeadamente a concorrência desleal vinda do estrangeiro, a situação degradou-se”, afirma à agência Lusa o antigo presidente da Câmara, Jerónimo Lóios.

O agora presidente da Assembleia Municipal de Arraiolos, no distrito de Évora, recorda que o Parlamento aprovou, por unanimidade, a 31 de janeiro de 2002, a lei 7/2002 para a criação do Centro para a Promoção e Valorização do Tapete de Arraiolos, com competências de certificação.

Jerónimo Lóios conta que a comissão instaladora do centro, da qual faziam parte representantes de três ministérios, da Câmara Municipal e de associações de produtores, chegou a ser “empossada pelo [então] secretário de Estado Luís Paes Antunes”, num Governo do PSD.

Contudo, “até hoje, os vários governos ainda não aprovaram os estatutos e a respetiva proposta de funcionamento”, assinala, considerando que se trata da “omissão da aplicação de uma lei da República”, porque o Parlamento “legislou por unanimidade e criou os mecanismos todos, mas os governos não lhes dão sequência”.

As preocupações são partilhadas pela atual presidente do município, Sílvia Pinto, que diz à Lusa estar a “trabalhar para que a lei se torne uma realidade”, prometendo “fazer pressão junto do Parlamento e do Governo para que o Tapete de Arraiolos seja valorizado”.

“Era importante que quem compra um Tapete de Arraiolos saiba que está a comprar um verdadeiro, além de que isso traria uma maior dinâmica às casas de tapetes de Arraiolos e poderia criar mais alguns postos de trabalho”, defende.

O antigo presidente da Câmara também alerta para a situação financeira em que se encontram as empresas de tapetes de Arraiolos, devido ao que considera ser uma “concorrência desleal”, frisando que, em 2002, “eram mais de 20” e que “agora estão reduzidas a menos de metade”.

“O centro não impediria que o Tapete de Arraiolos fosse manufaturado noutras zonas, mas criaria uma distinção entre aqueles que são feitos em Arraiolos e aqueles que não são”, insiste Jerónimo Lóios.

Com uma loja aberta no centro da vila alentejana há cerca de 30 anos, Sertório Carrasqueira confessa à Lusa estar “desgostoso” por ver “falta de vontade” no avanço da certificação do tapete.

“Certificam tudo e mais alguma coisa e eu não percebo porque não certificam os tapetes. É um bordado que se pode copiar e fazer, mas o que queremos é salvaguardar a origem deles”, desabafa.

A situação, segundo o empresário, tem “prejudicado muito o negócio” em Arraiolos, porque “há tapetes fabricados noutros lados que fazem concorrência” aos genuínos.

As empresas de Arraiolos “vendem menos e não conseguem subir o preço do tapete para pagar mais também às bordadeiras”, explica.

Sertório Carrasqueira aponta que a diferença entre os tapetes feitos em Arraiolos e os outros está na qualidade da lã e na técnica utilizada.

“Aparentemente parece a mesma coisa, mas, depois, não é e uma das coisas que salta mais à vista é a lã, que não é lã, é uma mistura de lã com fibra”, afirma.

O Tapete de Arraiolos está a ser vendido a cerca de 250 euros por metro quadrado e a manufatura de cada metro quadrado demora entre duas a três semanas.

O município está também a trabalhar na candidatura dos Tapetes de Arraiolos a Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), cuja apresentação está prevista para 2017.

Do Tapete de Arraiolos, bordado a lã sobre tela, conhecem-se referências desde os finais do século XVI (1598), com origem na vila alentejana, povoada no princípio do mesmo século por mouros e judeus, expulsos da mouraria de Lisboa por D. Manuel I.

Segundo investigações históricas, as famílias ali fixadas encontraram abundantes rebanhos de boa lã e diversidade de plantas indispensáveis ao tingimento e fabrico das telas onde são manufaturados os tapetes, empregando a técnica do ponto cruzado oblíquo, denominada “Bordado de Arraiolos”.

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