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Arruda dos Vinhos afirma-se a partir da poetisa Irene Lisboa

A poetisa Irene Lisboa, nascida em 1892 em Arruda dos Vinhos, marca a identidade deste pequeno concelho, cuja Câmara Municipal procura, há pelo menos 21 anos, dar a conhecer ao público a pessoa que foi e a obra literária que deixou.

A meia hora da capital, Arruda dos Vinhos, com pouco mais de 13 mil habitantes, é o segundo concelho mais pequeno do distrito de Lisboa, tem como principal atividade económica a produção vitivinícola e possui património ligado às invasões francesas, mas é na figura de Irene Lisboa que procura afirmar-se à escala nacional.

André Rijo, presidente da Câmara Municipal desde 2013, diz à agência Lusa que essa estratégia “vem sendo seguida há pelo menos 21 anos”, quando o município decidiu dar o nome da escritora à biblioteca municipal.

Já em 2007, foi erguido na freguesia de Arranhó, onde Irene Lisboa nasceu, um pequeno núcleo museológico, com objetos pessoais, manuscritos, textos datilografados e primeiras edições da escritora, pedagoga e resistente antifascista.

O autarca reconhece que o atual núcleo não é suficiente – está aberto apenas alguns dias e atrai poucos visitantes – para dignificar o legado deixado por Irene Lisboa e a intenção do município passa por erguer a Casa-Museu Irene Lisboa na próxima década e “atrair novos visitantes”.

O projeto está previsto para a Quinta da Murzinheira, propriedade na freguesia de Arranhó, que pertenceu à sua família durante um século e que em 2009 foi vendida ao município com esse intuito.

Em 2013, os restos mortais de Irene Lisboa, que morreu em 1958, foram trasladados do cemitério da Ajuda, em Lisboa, para o cemitério de Arruda dos Vinhos, por ocasião das comemorações dos 120 anos do seu nascimento.

A estratégia municipal passa, também, por divulgar a vida e obra de Irene Lisboa “junto das próprias pessoas de Arruda e despertar o interesse nas gerações mais novas”.

Depois de entrar para a Câmara em 2013, frases da sua autoria passaram a estar inscritas no Centro Cultural do Morgado, no jardim da vila e na sede da Junta de Freguesia de Arranhó, onde esteve até agora instalado o núcleo museológico dedicado à poesia, entretanto transferido para a vila.

O município instituiu o Prémio Literário Irene Lisboa, nas categorias de poesia, prosa e ensaio, e organiza todos os anos a Semana Irene Lisboa, dedicada à literatura e às artes plásticas, tendo ainda estabelecido uma parceria com as escolas locais que, do primeiro ciclo do básico ao ensino secundário, introduziram o estudo da obra da poetisa nos seus currículos nos últimos dois anos.

Já este ano, surgiu o livro “Histórias do Vale Encantado, com contos infantis que têm como “pedra basilar” Irene Lisboa. “Ela não só é referenciada pelas personagens, como algumas histórias remetem para os seus contos”, explica o autarca.

Fruto desse trabalho, há também mais turistas a visitar o concelho. “Temos assistido a uma maior procura de grupos organizados para fazermos visitas guiadas ao núcleo museológico, à Quinta da Murzinheira, à Quinta de Monfalim (já no concelho de Sobral de Monte Agraço) e a locais que retratou na sua obra, como a zona histórica da vila, ou que remetem para acontecimentos, como as procissões de Nossa Senhora da Ajuda, da Nossa Senhora da Salvação”.

A autora de “13 Cantarelos”, a sua primeira obra publicada, nasceu na Quinta da Murzinheira, fruto de uma relação entre Luís Emídio Vieira Lisboa e uma criada, “a rapariga do campo enganada”, como escreve em “Começa uma vida”.

Mas o pai renegou a sua paternidade, separando para sempre a criança da mãe aos 3 anos de idade. Nessa altura, Irene Lisboa, que só aos 6 anos veio a ser registada com o nome do pai, passou a residir com a madrinha, Ilda Gouveia, entre a casa da Baixa de Lisboa e a Quinta do Monfalim, no Sobral de Monte Agraço, afastando-a da Quinta da Murzinheira.

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