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Associação cultural catapultou o nome de Tondela para o Mundo

A ACERT, associação que nasceu pela mão de um grupo de jovens e que tem afirmado Tondela pela via do teatro, tornou-se especialmente conhecida em 1998, com a máquina da “Peregrinação”, que todos os dias percorreu a Exposição Universal de Lisboa.

José Rui Martins, diretor da Associação Cultural de Tondela (ACERT), recorda que esta organização, que se constituiu em 1979, teve a sua génese no grupo de teatro Trigo Limpo.

Mas a experiência criativa catalisadora de toda a atividade teatral só chegou em 1998, com ‘Memoriar’, a máquina de cena participante na ‘Peregrinação’, um desfile diário da Expo98 e que depois também passou na Expo Hannover 2000.

O “agigantar” do brinquedo tradicional de madeira – um ciclista – ficou na memória de milhares de pessoas que se cruzaram com esta imagem do imaginário popular. Hoje repousa num espaço verde, numa das entradas da cidade de Tondela.

Na continuidade deste processo criativo, foi também desenvolvido um novo projeto, onde ‘agigantaram’ um outro brinquedo tradicional: o passarinho, num espetáculo intitulado ‘Golpe d’asa’, que se apresentou na Expo Saragoça’08.

Mais recentemente, em 2014, a ACERT voltou a dar nas vistas com o gigante Salomão, personagem principal do espetáculo a ‘Viagem do Elefante’, inspirado na obra de José Saramago e que durante dois anos passou por diversas cidades do país.

Já este ano, a ACERT deu vida ao ‘Pequeno Grande Polegar’, uma marioneta gigante com mais de sete metros de altura à volta da qual se desenrola todo o espetáculo.

Nos últimos anos, esta associação tem ainda vindo a apresentar diferentes eventos âncora como o Jazz’in, o Tom de Festa ou o Finta, que ganharam projeção e colocaram Tondela no mapa artístico-cultural do país.

“Mas, mais do que isso, são as produções criadas pelo Trigo Limpo que obtêm uma notoriedade interessante no panorama do teatro português. Nestes últimos anos, temo-nos evidenciado de uma forma particular com grandes espetáculos de rua e grandes engenhos cénicos”, destaca José Rui Martins.

Ao olhar para trás, não tem dúvidas de que quando o ‘sonho’ começou estavam longe de saber que iam ser reconhecidos no panorama cultural do país.

“A nossa iniciativa é impulsiva e, mesmo muitos anos depois, não tínhamos consciência do que estávamos a fazer em termos de pioneirismo. Íamos fazendo o que as paixões determinavam e só depois começámos a sentir um retorno, começando com o reconhecimento da Câmara Municipal, alguns anos depois”, defende.

Sobre o impacto que a ACERT tem no concelho, o ator admitiu que com o tempo foram ganhando consciência disso, mas sempre cientes de que o êxito nunca os deve embebedar, para continuarem a ser o mais genuínos possível.

“Quando começámos, havia uma grande desertificação de projetos culturais, concretamente aqui no distrito de Viseu. Ficamos felizes por poder dar o nosso contributo ao longo de tantos anos”, acrescenta.

À agência Lusa, o presidente da Câmara de Tondela, José António Jesus, refere que há vários fatores que levam à projeção do nome de Tondela, mas é naturalmente no domínio cultural que tem sido mais evidente ao longo de algumas décadas.

“Tratando-se de uma associação que incorpora uma companhia de teatro, esse é um fator indutor relevantíssimo para a atividade cultural em toda a região e não apenas no concelho. A ACERT dá um forte contributo enquanto espaço privilegiado para a criação, mas também enquanto estrutura que induz e provoca o desenvolvimento local através da transposição de modelos de criatividade para outras instituições, projetos e dinâmicas”, defende.

No seu entender, é indiscutível que o concelho de Tondela é hoje referenciado por outros fatores, em particular pela sua dinâmica empresarial e empregadora e riqueza gerada através do seu tecido associativo e, mais recentemente pelo pilar do futebol, com o clube da cidade a militar na I Liga.

“Mas não ignoro que nos meios culturais, desde há vários anos, de norte a sul do país, principalmente nos eixos dos grandes centros criativos, a ACERT sempre assumiu uma marca relevante, principalmente na área do teatro, até na literatura e pensamento critico. Indiscutivelmente que a projeção que a ACERT atingiu também ajudou a projetar, afirmar e divulgar o nome de Tondela no país”, sublinha.

A primeira sede da estrutura teve lugar numa pequena sala de cinco por oito metros, na Romeira, onde conseguiam ter teatro, cinema, cafés-concerto, espaço de leitura e de convívio.

“O nosso sonho estava todo nessa sala de cinco por oito metros”, recorda, emocionado, José Rui Martins.

Corria o ano de 1976 quando um grupo de jovens estudantes, associados a diferentes operários, decidiram começar a extravasar os ventos da liberdade trazidos pela Revolução de Abril de 1975.

“Estávamos felizes, mas sentíamos que o 25 de Abril não estava a ter, nesta região, o eco que devia. O nosso grupo de teatro amador, que começou por ensaiar principalmente em Molelos, no fundo acabou por ser criado não pelo aspeto artístico e até podia chamar-se militância cultural”, sustenta.

Esse grupo de teatro tinha como objetivo principal “angariar dinheiro para realizar algumas obras e com bilheteiras juntávamos verbas para alguns melhoramentos nas localidades. O nosso primeiro espetáculo teve a receita a reverter para o infantário de Tondela, que hoje, felizmente, está a funcionar muito bem”, aponta.

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