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Barragem que Américo Thomaz lançou só é concluída em 2016

Uma barragem que começou a ser construída no município angolano de Cambambe ainda no tempo colonial português, há mais de meio século, vai ficar concluída em 2016, já depois de Angola completar 40 anos de vida independente.

A barragem de Cambambe, no rio Kwanza, a 200 quilómetros de Luanda, começou a ser construída em 1958 e foi inaugurada a 06 de outubro de 1963 pelo então Presidente da República português, Américo Thomaz.

Construída pela Hidroelétrica do Zêzere e de investimento totalmente privado, a barragem surgiu face à negociação para a instalação em Angola de uma fábrica de alumínio, com elevadas necessidades de consumo de eletricidade.

A instalação acabou por não se concretizar e a construção que já estava em curso parou sem que fosse concluído o projeto inicial, ficando-se a barragem pela quota de 102 metros (acima do nível do mar) e com quatro grupos geradores (dois só foram instalados em 1969) com um total de 180 MegaWatts (MW) de potência instalada, para garantir os consumos de Luanda.

A conclusão da barragem, com o seu alteamento e reforço da potência, chegou a estar prevista para 1975 e depois para 1982, mas a situação política e de conflito armado no país nunca permitiu retomar a empreitada.

A barragem de Cambambe manteve-se assim inalterada até 2007, quando o Governo angolano decidiu completar o projeto inicial, aumentando a produção dos então 90 MW – capacidade que era mais baixa do que a inicial devido à falta de manutenção – para 960 MW, num investimento de 1,4 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros) em três fases, a cargo da construtora brasileira Odebrecht.

“Foram feitos os estudos e chegou-se à conclusão que o estado da barragem era tão bom que permitia esse alteamento. Estamos a falar de uma barragem com 50 anos e subi-la mais 30 metros”, começou por explicar à Lusa o engenheiro português Luís Pereira, responsável de projeto da Odebrecht.

A primeira fase da obra, que arrancou em 2009, implicou a reabilitação dos quatro grupos geradores já então com praticamente meio século de funcionamento, voltando a colocar a potência de produção em 180 MW.

Seguiu-se a empreitada de alteamento, ainda em curso, que vai acrescentar 30 metros à altura da barragem, conforme previsto no projeto original português, o que por si só garantiria elevar essa produção para 260 MW.

“Basicamente estamos a cumprir o projeto inicial, porque esta barragem, quando foi projetada, já foi para esta quota [130 metros] e para estes parâmetros”, refere o responsável da obra.

A terceira fase, que também está em curso, envolve a implementação de uma nova central, com quatro geradores e um total de 700 MW, que entram em funcionamento, faseadamente, durante o segundo semestre de 2016.

“Em final de dezembro de 2016 teremos o projeto em fase de cruzeiro”, garante Luís Pereira, um dos cerca de 70 portugueses – entre Odebrecht e empresas subcontratadas – envolvidos atualmente na obra de Cambambe, município da província do Cuanza Norte.

Com estes trabalhos, a área de albufeira do Kwanza vai passar de 1,5 para cerca de seis quilómetros quadrados, com o lago a terminar a três quilómetros do paramento da barragem, o dobro do atual.

A obra teve ainda a característica de estar obrigada a decorrer com a barragem em funcionamento, devido ao forte défice angolano em produção de eletricidade.

“Vai gerar energia de uma forma muito satisfatória para Angola. Hoje já estamos com 180 [MW] e com a central 2 vai para 960 [MW]. Isso aí é um ganho fantástico de energia”, reconheceu à Lusa Fabrício Andrade, responsável administrativo-financeiro da Odebrecht no Empreendimento Hidroelétrico de Cambambe.

A importância de Cambambe, sobretudo pelo abastecimento elétrico a Luanda, denota-se ainda pela proteção com tanques e artilharia diversa montada na envolvência do empreendimento pelo exército angolano durante a guerra civil, que terminou em 2002.

Hoje é palco de um dos maiores estaleiros de Angola, com 4.600 trabalhadores, dos quais 290 expatriados de 20 nacionalidades diferentes, sobretudo brasileiros e portugueses.

 

* O presente texto é uma republicação após ter sido editado pela primeira vez no site da Lusa Dias da Independência

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