Fechar
Abrir

Barragem “revolucionou” agricultura de Montemor-o-Novo, mas há “sonhos adiados”

A Barragem dos Minutos, em Montemor-o-Novo (Évora), reivindicada durante décadas, tornou-se realidade em 2002, “abrindo” portas” à agricultura de regadio no concelho, mas o turismo e o abastecimento público de água permanecem como “sonhos adiados” do projeto.

Natural de Montemor-o-Novo, o ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, que em 1998 anunciou a construção da barragem, então como secretário de Estado do setor, inaugurando-a quatro anos depois, já como titular da pasta agrícola no Governo de então, assinala a importância do projeto a nível local.

“Convivi, desde sempre, com o sonho mítico dos montemorenses em verem concretizado o projeto da Barragem dos Minutos, cuja primeira promessa de construção foi feita há quase 60 anos. Foi um projeto pelo qual me interessei desde que me conheço e foi um dos temas pelo qual me bati”, recorda à agência Lusa o governante do PS.

Também a presidente da Câmara de Montemor-o-Novo, Hortênsia Menino, e o diretor técnico da Associação de Beneficiários da Barragem dos Minutos, João Mamede, realçam as vantagens da infraestrutura para o desenvolvimento do concelho.

“É um projeto emblemático. Durante muito tempo, foi ansiado e esperado, sobretudo pelos agricultores, porque a agricultura no concelho era praticamente toda de sequeiro e, com a barragem, passou a ser possível fazer regadio”, afirma João Mamede.

A autarca também vinca a “inovação” do projeto: “Foi possível diversificar a atividade agrícola, permitindo expandir a produção e alterar o tipo de culturas agrícolas, o que, num concelho com condições para a atividade produtiva, foi um aspeto positivo e relevante”.

A Barragem dos Minutos estava prevista desde 1957, no Plano de Rega do Alentejo, tal como o empreendimento do Alqueva, mas as obras só arrancaram efetivamente em 2000, sendo inauguradas a 24 de fevereiro de 2002.

O empreendimento, que custou cerca de 35 milhões de euros, incluindo a rede de rega, foi construído no Rio Almansor. As comportas só foram fechadas no início de 2003, para possibilitar o enchimento da albufeira e permitir criar mais de 1.500 hectares de regadios.

“Era um projeto de importância vital para o concelho e uma aspiração legítima das populações”, insiste o ministro da Agricultura, indicando que a área de regadio criada “abriu portas” à alavancagem de “todo um setor de atividade que precisava de ser reconvertido”.

O primeiro ano de rega, de acordo com João Mamede, aconteceu em 2004 e, desde o princípio, “a adesão dos agricultores foi muito boa”, com o perímetro a abranger, atualmente, “mais de 30 beneficiários” da grande propriedade e “mais de 100 agricultores” de minifúndio.

Enquanto os pequenos agricultores fazem, sobretudo, “agricultura de subsistência e rega de hortas”, na vertente dos grandes proprietários predominam o milho e os prados, estes últimos para alimentação do gado, naquele que é “o concelho do país com o maior efetivo de gado bovino”, precisa.

Mas, se em termos agrícolas, o projeto “correspondeu às expetativas” e a associação de beneficiários até já tem um projeto para candidatar a fundos europeus o alargamento do perímetro de rega “em mais 300 ou 400 hectares”, outros potenciais da barragem estão adiados.

“O reforço do abastecimento público de água às populações é uma componente que há muito tempo reclamamos e que está, agora, a ser avaliada”, diz a presidente da Câmara, explicando que o município e a empresa Águas Públicas do Alentejo querem ver essa solução avançar, estando a ser delineado o projeto.

Montemor-o-Novo, frisa, é abastecido através de captações de água subterrâneas e surgem “dificuldades em anos de seca”, pelo que “é importante que seja garantido o reforço do abastecimento” a partir da Barragem dos Minutos, que até foi construída com uma tomada de água preparada para esse fim.

A Câmara quer, igualmente, que a barragem seja aproveitada do ponto de vista desportivo e recreativo. Mas, antes, tanto para a concretização deste potencial, como para o abastecimento público, é preciso que haja um plano de ordenamento da albufeira, cuja decisão cabe ao Governo, alerta Hortênsia Menino.

“Esse plano é que definirá as regras e permitirá definir se há condições ou não para a compatibilização de todos estes usos”, explica a autarca, que planeia retomar estas reivindicações junto do executivo do PS: “Tem mesmo que haver uma tomada de decisão e o processo tem de ser iniciado”.

Da parte dos agricultores, João Mamede não antevê obstáculos, até porque reconhece que, apesar de “a água que se bebe em Montemor-o-Novo” ser “muito boa”, é preciso “garantir que, quando chega o verão, todas as localidades têm água”, sendo “possível conciliar esses usos”.

E Capoulas Santos, que diz sentir “muita pena”, quando se desloca à barragem, ao ver “uma componente importante, o turismo, totalmente desaproveitada”, lembra que teve “o cuidado de incluir no projeto” a vertente do abastecimento de água, ainda que essa não seja competência do Ministério que lidera.

 

Voltar atrás