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Benavente, onde o comunismo aceitou o luxo para dar vida melhor às populações

O enquadramento natural e a proximidade e acessibilidade a Lisboa atraíram para Benavente, nas últimas décadas, empreendimentos de luxo, sobretudo em Santo Estêvão, e grandes armazéns grossistas, no Porto Alto, símbolos do capitalismo bem recebidos num município comunista.

Presidente da Câmara de Benavente durante 34 anos (entre 1979 e 2013), sempre com maiorias absolutas, António José Ganhão, militante e ex-dirigente comunista, não vê incompatibilidade entre a ideologia que abraçou e a estratégia de desenvolvimento que adotou para o concelho.

“Não há bem-estar social sem emprego e economia para as pessoas terem uma vida melhor. A base económica de um concelho tem muito a ver com a capacidade das suas empresas, sejam do setor privado, cooperativo ou público. Nada na ideologia pode contrariar isso”, declara o ex-autarca à agência Lusa.

Os empreendimentos de luxo de Santo Estêvão, que incluem dois campos de golfe, surgiram numa zona onde a mecanização da agricultura obrigou a encontrar alternativas para a mão-de-obra que deixou de ser necessária e a contrariar a tendência para “deprimir e desertificar”.

O património natural e paisagístico suscitou o interesse de agentes económicos e com eles veio o emprego na construção civil, no serviço doméstico, a criação de pequenas empresas para cuidados de jardinagem, tratamento dos campos de golfe, segurança.

“Foram alternativas ao trabalho sazonal na agricultura e com sucesso”, diz António Ganhão, apontando os índices de crescimento demográfico que mostram como este foi o concelho que mais cresceu em população no distrito de Santarém.

Foi também durante os mandatos de Ganhão que o Porto Alto, fruto da “localização estratégica” conferida pela proximidade das autoestradas 10 e 13, foi invadido por grandes armazéns grossistas, muitos deles para abastecimento das lojas chinesas que proliferaram pelo país.

“Não tenho nenhum problema de consciência política. Tem a ver com o processo de desenvolvimento do país em que vivemos. É a economia que temos. Não é a desejada, pois gostaria que o país pudesse produzir e distribuir riqueza com muito mais equilíbrio”, afirma.

A relação com os grandes proprietários do concelho e com os investidores foi sempre “aberta, franca, leal aos projetos e aos objetivos”, assegura, sublinhando que “nunca nada se sobrepôs ao interesse da população e à legislação”.

Com o partido “havia diferenças de opinião, claro, mas facilmente e compreensivelmente ultrapassadas e sem nunca ter tido qualquer tipo de situação” que o incomodasse, pois esteve “sempre de bem” com a sua consciência.

Atualmente sem qualquer cargo político ou partidário – deixou a presidência da Assembleia Municipal de Benavente em fevereiro deste ano por motivos de saúde -, António José Ganhão afirma que a sua preocupação “fundamental” foi “dirigir toda a capacidade financeira [do município]para criar infraestruturas que servissem um projeto de desenvolvimento”, desde as escolas públicas, ao apoio às coletividades, associações e instituições particulares de solidariedade social, essenciais na oferta social, cultural e desportiva para as populações.

O homem, que durante mais de duas décadas foi vice-presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, e que granjeou o respeito e a simpatia de adversários, apenas lamenta ter deixado por cumprir o sonho de requalificar os centros da vila de Benavente e da cidade de Samora Correia.

“Um concelho é um somatório de todas as sinergias. Algumas ficaram para trás. Não temos bons jardins como outras terras, mas as pessoas não comem flores. Precisam de trabalho para terem uma vida digna”, remata.

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