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Boticas ataca despovoamento com infraestruturas e valoriza carne barrosã

Boticas enfrentou o despovoamento com uma forte aposta na construção de infraestruturas, nomeadamente de abastecimento de água, saneamento, estradas, equipamentos culturais e escolares, aliando também o património aos produtos locais, como a premiada carne barrosã.

“Boticas deu um salto muito significativo nestes últimos 30 anos”, afirma Fernando Queiroga, presidente da Câmara de um município afetado pelo despovoamento, onde foram muitos os que migraram e emigraram ao longo de décadas. À partida dos jovens juntou-se o envelhecimento de quem ficou.

Nos anos 60 e 70 [do século XX], “o município foi assolado pela emigração. Não havia empregos nem condições de habitabilidade e de conforto para as populações”, salienta o autarca, que elogia a visão dos seus antecessores no aproveitamento dos fundos comunitários, que permitiram que “se tenha infraestruturado praticamente todo o concelho”.

A taxa de cobertura das redes de água e de saneamento ronda os 90% e o território “foi rasgado por uma rede viária que o atravessa de uma ponta à outra”.

Boticas foi também um dos primeiros concelhos do Norte a concentrar todos os alunos num centro escolar e a fechar as escolas primárias.

Há ainda piscinas municipais, um pavilhão multiusos, um centro de artes, mas, segundo Fernando Queiroga, “nada de megalómano”.

Tudo isto criou “melhores condições de vida” para as populações e agora “todas as forças e políticas” estão canalizadas para a criação de emprego, para que seja possível fixar as pessoas”.

O município dá incentivos financeiros às empresas que se instalem no concelho e criem emprego e está apostado na dinamização do turismo. “São estes dois pilares que ajudam a fixar as pessoas e dão rendimento às pessoas”, salienta.

O autarca lamenta, no entanto, o “acesso tardio que foi a autoestrada 24”, que “condicionou o desenvolvimento” deste território. “Agora é mais difícil cativar qualquer empresa para estes territórios porque há muita oferta perto dos grandes centros”, sustenta.

Apesar do constrangimento das acessibilidades, no final da década de 1990 fixou-se em Boticas uma fábrica que produz fio para redes de pesca e emprega 220 pessoas. “É muito significativo e ajudou a estancar o êxodo”, reconhece o presidente da autarquia.

Para atrair visitantes, o município agarra-se “à sua história” e “às paisagens” e, na história de Boticas, destacam-se os castros da idade do Ferro, as minas de ouro exploradas pelos romanos e que já levaram à criação do Parque Arqueológico do Vale do Teva, bem como o vinho dos mortos.

Foram as Invasões Francesas que originaram o aparecimento deste ‘ex-líbris’. Na altura, a população enterrou o vinho, que adquiriu propriedades novas, como um gás natural.

Por ter sido “enterrado”, ficou a designar-se por vinho dos mortos e passou a utilizar-se esta técnica, embora a produção média anual ronde apenas as seis a sete mil garrafas.

Fernando Queiroga frisa, ainda, que o turismo alavanca os restaurantes e a agricultura, com destaque para a produção de cabrito ou de carne barrosã.

Há 20 anos que a carne barrosã possui Denominação de Origem Protegida (DOP) e, neste período, foi feito um trabalho de valorização do produto, que envolveu a Universidade de Lisboa.

Albano Álvares, do Agrupamento de Produtores de Carne Barrosã, diz à Lusa que o trabalho universitário concluiu que este produto é rico em “ómega 3 e antioxidantes” e ajudou “a credibilizar as características”.

O modo de produção é natural e os animais alimentam-se dos pastos onde ficam durante todo o dia.

Esta raça chegou a estar em risco de extinção, mas atualmente, segundo o responsável, há cerca de 700 produtores que se espalham por 21 concelhos de quatro distritos do Norte, as vendas rondam as duas mil carcaças por ano, ou seja, à volta de 200 toneladas de carne, o que representa um volume de negócios de 1,2 milhões de euros.

Albano Álvares sublinha que este produto tem conquistado vários prémios e distinções, destacando os hambúrgueres de carne barrosã, uma “inovação” que “está a ter resultados muito positivos”.

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