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Canas quase se separou de Nelas e agora trabalha para se desenvolver

Depois de anos de luta intensa, Canas de Senhorim esteve, em 2003, prestes a concretizar o sonho de ser concelho, mas atualmente a prioridade é “trabalhar para o desenvolvimento da terra”, em conjunto com a Câmara de Nelas.

Um projeto-lei que dava resposta aos anseios “separatistas” de Canas de Senhorim foi aprovado a 01 de julho de 2003 e, eufórico, o povo saiu à rua para festejar. No último dia do mesmo mês, o Presidente da República de então, Jorge Sampaio, desfez o sonho, ao vetar a lei-quadro de criação de novos municípios.

O veto levou o povo a retomar as ações de luta. No final de 2004, populares tentaram impedir a saída de camiões carregados de minério das instalações da Empresa Nacional de Urânio, o que lhes valeu a constituição como arguidos.

“É importante que o movimento perceba quando pode, ou não, avançar e quando deve recuar”, diz à agência Lusa Luís Pinheiro, que lidera o Movimento de Restauração do Concelho de Canas de Senhorim desde 1998.

Com Luís Pinheiro à frente do movimento, viveram-se anos marcados por muitas ações de luta que abriram telejornais e fizeram manchetes.

Desde as autárquicas de 1997 que os populares vinham boicotando atos eleitorais, tendo esse “jejum” eleitoral sido quebrado nas legislativas de 2002, na sequência de um apelo de Jorge Sampaio, para que a legalidade fosse reposta, e da promessa dos partidos de que voltariam a levar o projeto-lei da elevação de Canas a concelho à Assembleia da República.

Luís Pinheiro recorda que “Canas de Senhorim chegou a ser concelho por um mês”, em 2003, e admite que, ainda hoje, “Canas tem uma mágoa muito grande” relativamente a Jorge Sampaio.

“Deixou-nos completamente abandonados e entregues à nossa sorte. Ele vetou e, naturalmente, os partidos não quiseram pegar mais na situação e nós ficámos com o menino nos braços”, lamenta.

A análise da situação levou à decisão de “pôr o doutor José Correia (presidente da Câmara) na rua”, considerando Luís Pinheiro que o povo de Canas de Senhorim foi preponderante para a vitória de Isaura Pedro (PSD/CDS-PP) nas autárquicas de 2005, impedindo o socialista de cumprir o seu quinto mandato consecutivo.

Luís Pinheiro esteve 12 anos à frente da Junta de Freguesia de Canas de Senhorim e mantém-se no executivo, embora nas últimas eleições, devido à limitação de mandatos, tenha concorrido como segundo da lista.

“Entendemos que devíamos ficar a tomar conta dos destinos da Junta, porque seria uma ponte de lançamento para qualquer negociação com o Governo ou com a Assembleia da República. No fundo, o movimento institucionalizou-se com a Junta de Freguesia”, realça.

Primeiro com Isaura Pedro e, desde 2013, com Borges da Silva (PS), as relações com a Câmara de Nelas melhoraram e hoje o movimento quer ser “congregador de esforços e de ideias”.

“Não faz sentido estarmos a desenterrar esta bandeira, até porque estamos a trabalhar bem com a Câmara e percebemos a situação nacional”, frisa.

Depois de décadas sem investimentos na freguesia, estes começaram a aparecer e hoje o movimento tem “um relacionamento muito bom” com a Câmara e o seu presidente, fazendo “um trabalho de qualidade e dentro do que é possível com as dificuldades financeiras existentes”.

No entanto, Luís Pinheiro deixa uma certeza: “Nem morremos, nem parámos, optámos por outra via, mas com o mesmo movimento”.

O movimento surgiu de forma organizada logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, embora a aspiração de Canas de Senhorim tivesse ficado latente na população desde o tempo da Janeirinha, em 1868.

No entanto, foi a 02 de agosto de 1982 que teve início uma luta mais afincada pela separação de Nelas. Nesse dia, o edifício dos Correios foi tomado pela população, que exigia um código postal próprio, e a linha de caminho-de-ferro foi cortada.

“O movimento teve uma ação cíclica: foi para a rua em 1982, depois negociou com a Câmara, depois foi outra vez para a rua, fez mais umas manifestações, depois comigo entrámos numa luta sem tréguas, mais forte, com as pessoas todas na rua”, recorda.

Luís Pinheiro garante que o movimento não está parado, continuando a reunir mensalmente e a comemorar o 02 de agosto como símbolo do sonhado concelho.

Atualmente, é e continuará a ser – pelo menos enquanto o liderar – “um movimento agregador e que tenta que a terra recupere aquilo que tem perdido”.

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