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Capeia do Sabugal, a tradição revitalizada

O registo da capeia arraiana no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, em 2011, deu novo ânimo a esta tradição tauromáquica do Sabugal e permitiu a sua recuperação em localidades onde começava a definhar.

A capeia arraiana é uma tradição do concelho do Sabugal, no distrito da Guarda, junto da fronteira com Espanha, que tem maior projeção nos meses de verão, com a presença de milhares de emigrantes e de naturais da região.

É uma manifestação tauromáquica que se distingue das restantes por incluir a lide do touro bravo com recurso ao forcão, um engenho em madeira de forma triangular que é manuseado por cerca de 30 homens.

O forcão tem por objetivo “cansar” o touro para que, posteriormente, os homens mais corajosos o possam agarrar.

A tradição é praticada nas localidades de Alfaiates, Aldeia Velha, Aldeia da Ponte, Aldeia do Bispo, Fóios, Forcalhos, Lageosa, Nave, Rebolosa, Soito e Ozendo (freguesia de Quadrazais).

Com o registo da capeia arraiana no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, condição indispensável para a sua eventual candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade, foi dado “um novo fôlego à tradição”, segundo o presidente da Câmara Municipal do Sabugal, António Robalo.

“Nota-se pela afluência das pessoas de fora e, por outro lado, pela forma mais esmerada como as mordomias, as comissões e os organizadores tratam a manifestação”, diz o autarca à agência Lusa.

António Pissarra, professor no Instituto Politécnico da Guarda e coautor do livro “Terras do forcão”, que versa a temática da capeia arraiana, considera que “o processo de classificação foi igualmente importante na recuperação da tradição em localidades onde estava perdida ou era quase residual”.

“A construção de novas estruturas e o aumento de eventos é disso a prova”, assinala.

A proposta da candidatura foi uma iniciativa do município, mas corresponde “ao sentir de uma vasta população dos territórios da raia sabugalense”, frisa António Pissarra.

Segundo este responsável, com o registo daquela tradição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial terminou o processo de proteção legal, “mas não terminou o cuidado para preservar, viver e potenciar a tradição para bem de todos os povos da raia”.

“É certo que a grande maioria da população não tem a noção da importância do inventário realizado e nem sequer conhecimento de que a capeia é parte integrante do inventário nacional, muito menos a sua primeira entrada”, sublinha, em declarações à Lusa.

Aponta, no entanto, que a capeia “está viva como prática natural, integrante do calendário e das vivências mais arreigadas no sentir coletivo dos arraianos” e, apesar de não estar em risco, “é importante que em todas e cada uma das localidades se tenha presente a classificação”.

Em sua opinião, “deve manter-se esta manifestação nos termos da sua classificação e afastar eventuais tentações para ‘inovações bacocas’ que possam levar à perda daquele estatuto”.

O reconhecimento da capeia também “tem contribuído para a sua divulgação e potenciação como fenómeno com impacto económico”, observa.

“Escrevemos, em tempos, que a raia era o Algarve do interior. A âncora, que ‘segura’ os locais emigrados e deslocalizados no resto do país e ‘chama’ muitos forasteiros, é a capeia. No entanto, pode resultar ainda em mais benefícios para as populações locais, sem que o seu sucesso mediático implique a sua desvirtuação”, remata.

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