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Caso do alumínio em Évora, 25 mortos “impensáveis” nos dias de hoje

A morte de 25 insuficientes renais crónicos por intoxicação com alumínio, como a ocorrida em 1993 no hospital de Évora, é hoje “praticamente impensável”, segundo os doentes, graças a “muitas mudanças”, maior vigilância e a evoluções tecnológicas.

Como reza o ditado popular “depois de casa arrombada, trancas à porta”, o polémico “caso do alumínio”, que fez correr rios de tinta e levou à demissão do então ministro do Ambiente Carlos Borrego, por causa de uma anedota, “obrigou” a alterações legislativas e a uma evolução científica e tecnológica que permitem hoje uma “maior segurança” nos tratamentos de hemodiálise.

“Será praticamente impensável repetir-se esta tragédia nos nossos dias”, diz à agência Lusa o presidente da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais (APIR), João Cabete, reconhecendo que “muito mudou” nas últimas duas décadas.

A criação de um Manual de Boas Práticas de Diálise Crónica, sobretudo, estabelecendo níveis máximos de alumínio, e uma “maior eficiência” dos atuais filtros artificiais das máquinas de hemodiálise, fruto da evolução tecnológica, são duas das mudanças apontadas pelo responsável.

Os “dramáticos acontecimentos” remontam ao início de 1993, quando surgem os primeiros alertas de que o sistema de tratamento de águas na unidade de hemodiálise do hospital estaria avariado e, a 01 de abril, o Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS) denuncia a morte de insuficientes renais crónicos, desde o mês anterior.

Dois dias depois, a 03 de abril, é conhecida a morte de dez doentes sujeitos a hemodiálise, devido a intoxicação alumínica. O número total de mortos, ao longo de três meses, atinge os 25.

“Os resultados das análises aos doentes viriam a confirmar níveis elevados de alumínio no sangue”, lembra o presidente da APIR.

O alumínio passa então a dominar o vocabulário, a ocupar páginas de jornais e a polémica, envolvendo também a qualidade da água da rede pública, arrasta-se até ao julgamento no tribunal da cidade, quatro anos depois, com três médicos e um engenheiro hospitalar a sentarem-se no banco dos réus.

Em novembro de 1997, o também apelidado “caso da hemodiálise” chega ao fim, com o nefrologista João Aniceto, à data dos factos responsável pela unidade de hemodiálise, a ser condenado, em primeira instância, a três anos de pena suspensa, sob a acusação de homicídio por negligência, e a ver absolvidos os outros três arguidos, dois médicos e o engenheiro.

A par do processo criminal, o cível é arquivado, após todos os familiares das vítimas terem recebido uma indemnização de “quatro mil contos” (20 mil euros) cada, na sequência de um despacho ministerial.

Com o alumínio “nas bocas do mundo”, uma piada considerada de “mau gosto” e contada em público, na altura, pelo ministro Carlos Borrego levou ao fim da sua carreira política.

“Sabem o que é que no Alentejo – em Évora melhor dizendo – fazem aos cadáveres das pessoas que morreram ultimamente? Levaram-nos para reciclar, para aproveitar o alumínio”, afirma o ministro do segundo Governo de Cavaco Silva, em junho de 1993, sendo imediatamente demitido.

Hoje, 23 anos depois do que considera ser a “maior tragédia de que há registo em Portugal” na área da hemodiálise, o presidente da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais reconhece ter sido vivida, na época, uma “série de infelizes circunstâncias”, com origem no alumínio.

A controvérsia estala quando, a par do “aumento da concentração de metais” na água da albufeira do Monte Novo, que abastece a cidade, devido à seca que assolara a região, são divulgadas deficiências no funcionamento da estação de tratamento de águas do hospital, ao nível do sistema de filtragem.

Em causa está o facto de os hemodialisados estarem expostos ao alumínio através da água ou dos alimentos que consomem, mas também através da água usada na preparação das soluções dialisantes e que pode chegar, segundo a APIR, a cerca de 300/400 litros por semana.

Contudo, explica João Cabete, enquanto a água ingerida é naturalmente filtrada, “impedindo a absorção em excesso do alumínio”, a solução dialisante “entra em contacto praticamente direto com a corrente sanguínea, existindo apenas um filtro artificial”, que faz parte das máquinas de hemodiálise.

O “trágico” incidente conduziu a mudanças, até da própria legislação, diz, recordando a criação de um Manual de Boas Práticas de Diálise Crónica, elaborado pelo Colégio de Nefrologia da Ordem dos Médicos, que “veio estabelecer níveis máximos de alumínio” (entre outros parâmetros químicos) admitidos na água utilizada na hemodiálise.

Entre outras alterações, indica, o manual estabeleceu também a frequência de análise da aluminemia nos doentes para evitar as suas consequências a médio e longo prazo.

Por outro lado, ao longo do tempo, evoluíram a ciência e a tecnologia, tornando o atual filtro artificial das máquinas de hemodiálise, segundo João Cabete, “muito mais eficiente”.

“Hoje em dia, a nova tecnologia aplicada nas centrais de água para hemodiálise permite uma maior segurança” quanto à contaminação por metais prejudicais à saúde” dos insuficientes renais, conclui.

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