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CEE tornou “ricos” pescadores de Esposende, UE ameaça-os de “extinção”

A comunidade piscatória de Esposende passou de “muito pobre” a “quase rica” com a entrada de Portugal na “antiga CEE”, o que mudou a cidade, mas atualmente corre “risco de extinção” porque a “Europa deu, mas agora exige demais”.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da Associação de Pescadores Profissionais de Esposende, Augusto Hipólito da Silva, pescador “desde que a memória se recorda”, aponta a entrada de Portugal na “antiga CEE” (Comunidade Europeia Económica), que trouxe à pesca em Esposende subsídios para “novos e melhores” barcos e obras na barra, como “o momento em que tudo mudou” para aqueles homens do mar.

Depois da riqueza dos “bons velhos tempos”, aquela comunidade de pescadores, a única do distrito de Braga, atravessa agora uma “grave crise”, faltam incentivos aos jovens para que abracem a arte, sobram leis que “estrangulam” a atividade e a “grande parte do soldo” acaba por vir da pesca ilegal do meixão e da lampreia no rio, nos meses em que o mar pouco peixe dá à terra.

“Com a entrada na antiga CEE, passámos de muito pobres a quase ricos. Tudo mudou. Houve dinheiro para novas embarcações, deixámos os barcos a remos, melhorou-se a lota e a barra. O comércio aqui desenvolveu, a cidade cresceu. Havia dinheiro e os pescadores gastavam-no. Mas isto foram os bons velhos tempos”, explica Augusto da Silva.

O dinheiro foi gasto, os anos passaram e novos problemas vieram à rede: “Hoje em dia não há incentivos para os jovens se dedicarem a esta arte. Não conseguem licenças, cartas, embarcações. A barra precisa de obras, sérias, mas dizem que não há dinheiro. E depois, a Europa deu, mas agora exige demais”, diz.

“São demasiadas normas, leis, feitas por quem não conhece o mar, a faina. A União Europeia está a apertar muito a rede e começa a não compensar ter embarcações a trabalhar aqui”, aponta, deixando críticas em jeito de apelo ao Governo.

“Estamos seis meses parados, em teoria. Parados porque não vamos ao mar, mas vamos ao rio, ao meixão e à lampreia. Ganhamos muito mais dinheiro aqui [na pesca daquelas espécies]do que no mar, mas é tudo na ilegalidade. Podiam facilitar a legalização da pesca no rio. A polícia deixava de ter de andar em cima de nós, nós deixávamos de fugir e em Lisboa recebiam mais impostos”, explana o pescador.

E, “depois, há o estado da barra, que é mau e afasta os barcos daqui”, lamenta.

Os pescadores, salienta, pedem obras “há anos e anos, mas pouco ou nada se tem feito” e o que se fez no passado, nos “bons velhos tempos” da entrada na CEE, corre o risco de ser levado pelo mar: “Somos a maior comunidade piscatória do país e não temos uma barra à altura, o que leva os barcos a fugirem para outros lados e a não deixarem aqui o dinheiro que podiam deixar”.

A associação a que preside, “há mais de dez anos”, representa cerca de 140 embarcações e cada uma carrega três homens.

“Cada barco funciona como uma empresa. Feitas as contas, temos de pagar salários e ganhar algum”, e as contas são estas: “Só por sair da amarração são 100 euros em combustível e iscos, mais 300 de três em três meses para seguros e, muitas vezes, voltamos sem ganho. O salário é o que calha”, uma “matemática complicada”, que Augusto da Silva sabe de cor.

A “prova” do “risco de extinção” de que padece aquela comunidade, “tão bem instalada à beira-mar”, é a idade dos homens que ainda vão ao mar.

“O nosso [da associação a que Augusto da Silva preside]homem mais novo tem 45 anos”, lamenta.

António da Silva confessou-se, por isso, “muito preocupado” com o futuro da comunidade de pescadores que lidera e, “por arrasto”, da cidade.

“A pesca em Esposende acaba aqui”, desabafa.

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