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Chamusca encontrou no “lixo” resposta para a desertificação

Com “morte social” anunciada para médio prazo, o concelho da Chamusca, no distrito de Santarém, encontrou no “negócio do lixo” uma estratégia de desenvolvimento, que, respondendo a um problema do país, permitiu a fixação de empresas e de pessoas.

Criado em meados da década de 2000, o Eco Parque do Relvão – onde se situam, nomeadamente, os dois únicos centros do país que recebem e tratam resíduos industriais perigosos – foi uma ideia que nasceu nos anos 80 como uma possível “salvação” para um concelho com um vasto território (746 quilómetros quadrados) e pouco mais de 11.000 habitantes, na sua maioria idosos.

Sérgio Carrinho, que presidiu durante 34 anos à Câmara Municipal da Chamusca (de 1979 a 2013), recorda à agência Lusa que a ideia surgiu quando, com dois técnicos, participou num seminário da Lipor, empresa que gere os resíduos do Grande Porto.

“Fomos lá, porque nessa altura discutia-se o que fazer com as lixeiras”, diz, relatando como, aí, se fez luz e ficou na sua cabeça que esta podia ser uma oportunidade única para a criação de emprego num concelho que dispunha de “centenas de hectares de terrenos nacionalizados pela Reforma Agrária, onde não vivia ninguém, longe das povoações, e que não prestavam para a agricultura”.

E a matéria-prima era “inesgotável”, pois “vai ser sempre preciso tratar resíduos”.

Seguiu-se a discussão sobre “o que fazer às sucatas”, o problema das “vacas loucas” e o que fazer com os resíduos animais, depois as latas, além do programa para erradicação das lixeiras, com a Chamusca a acabar por ser a solução para a instalação do aterro que ia servir a região.

“Atirámo-nos de cabeça. Depois da visita ao Porto, esta parecia-nos a solução, pois não havia no país resposta para os resíduos industriais banais, para os hospitalares e depois para os perigosos”, recorda.

Seguiram-se discussões “muito abertas, muito envolvidas”, seminários, visitas a instalações noutros países, em “grande cooperação” e mantendo os órgãos eleitos e a população informados.

“Gerou-se um clima de grande confiança”, apesar de haver quem não estivesse de acordo, lembra.

Foi uma opção de desenvolvimento “em desespero. Nada aqui ia acontecer senão algo a que mais ninguém pudesse concorrer connosco. Tínhamos um território com carência de ocupação de pessoas, em desertificação acelerada”, reconhece, lembrando um período “de grande empolgamento, grande estudo, de esforço em combater receios e encontrar parceiros”.

Olhando para trás, na casa que foi dos avós e onde hoje passa as tardes organizando dezenas e dezenas de objetos carregados de memórias, Sérgio Carrinho considera que esta foi uma experiência “muito enriquecedora”.

“Compensa sempre tentar fazer o melhor e ganhámos”, afirma à Lusa, apontando os 400 postos de trabalho criados no Eco Parque do Relvão, alguns exigindo conhecimentos especializados e grande responsabilidade, e os investimentos avultados.

Sérgio Carrinho reconhece os riscos desta aposta, nomeadamente ambientais e de negócio (com a crise e a redução de resíduos, algumas das empresas não estão a ter os resultados que esperariam).

E há ainda problemas por resolver, como o das acessibilidades, que, apesar das promessas das tutelas, nunca saíram do papel, ou o “inferno” da burocracia que faz com que não tenha sido ainda possível alterar o Plano Diretor Municipal e o Eco Parque do Relvão não exista formalmente enquanto tal.

“Reconheço que funcionámos tipo buldózer”, sublinha, acrescentando que, no entanto, não lhe “passa pela cabeça que, por uma norma administrativa, se ponha em causa um setor empresarial que tem de existir, porque vai ser sempre necessário”.

Sérgio Carrinho diz acreditar que “o bom senso vai imperar”, frisando que uma população e um concelho que se disponibilizaram para “resolver um problema que mais ninguém queria” merecem ser tratados “com respeito”.

“Esta não pode ser uma indústria que nos envergonhe, pois contribui para a sustentabilidade do Planeta”, remata.

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