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Chaves transforma fronteira do contrabando em eurocidade

A raia entre Chaves e Verín, na Galiza, foi durante décadas atravessada por contrabandistas que carregaram comida ou tabaco e até ajudaram políticos a fugir, mas, em 2007, esta fronteira esbateu-se completamente e deu lugar à primeira eurocidade peninsular.

O Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Eurocidade Chaves-Verín foi anunciado como uma iniciativa pioneira na Península Ibérica e na Europa, tendo os primeiros passos para este projeto político sido dados com a adesão de Portugal à União Europeia, que abriu as fronteiras, e a sua concretização ocorrido em 2007.

“Somos um mesmo povo e quisemos dar o exemplo de que é possível trabalharmos em conjunto”, diz à agência Lusa o presidente da Câmara de Chaves, António Cabeleira.

Mas esta raia, agora de portas abertas, foi durante décadas atravessada por contrabandistas que arriscavam a liberdade, e por vezes a vida, para tentarem alcançar uma vida melhor.

Pela calada da noite, os raianos passavam carregados de tabaco, café, tecidos, volfrâmio, pedras de isqueiros, bacalhau ou gado. Até políticos – nomeadamente Álvaro Cunhal – que fugiam das cadeias foram ajudados por estes homens, num desafio à polícia de Salazar que lhes poderia custar a liberdade e mesmo a própria vida.

São muitos os que ainda vivem nestes territórios e guardam na memória as histórias dos “contrabandistas da raia” que jogavam ao “gato e ao rato” com a guarda-fiscal e os carabineiros espanhóis pelos trilhos ou até mesmo pelo rio.

José Manuel, 58 anos, é um desses raianos e recorda que, na sua aldeia, “andar no contrabando era normal”. Eram novos e mais velhos, por conta própria ou de outrem, e este era mesmo o principal meio de subsistência destas pessoas.

Com a abertura das fronteiras, o negócio acabou e, segundo José Manuel, sem alternativas muitos foram obrigados a emigrar e o despovoamento acentuou-se.

José Manuel admite que desde sempre se sentiu um eurocidadão, um sentimento que agora se “legalizou”.

António Cabeleira acredita que Chaves tem a “fronteira mais fácil” com Espanha e aqui até o rio Tâmega “une e não separa”.

A eurocidade Chaves-Verín já partilha um cartão de cidadão que dá acesso a piscinas, bibliotecas, eventos, formações ou concursos, bem como uma sede, uma agenda cultural, instalações desportivas e recreativas e atividades conjuntas.

A promoção turística está a ser feita também em conjunto, apostando na promoção dos dois concelhos como “a eurocidade da água”, já que existe no território grande diversidade de águas minerais.

Também a nível ambiental está a ser valorizado o corredor ecológico do rio Tâmega.

Os próximos projetos passam pela criação de uma rede de transportes transfronteiriços e de um posto de polícia comum na antiga fronteira luso-espanhola de Feces de Abaixo, onde está instalada a sede do projeto que, em 2015, foi distinguida pela Comissão Europeia (CE) com o prémio RegioStars.

O projeto está, segundo o autarca, desenvolvido até ao grau da autonomia municipal. É preciso agora, defende, subir mais um degrau.

“Queríamos muito que o fim último fosse um espaço de cidadania europeia, uma zona franca social, em que o cidadão, independentemente de onde viva, possa ir usufruir do serviço público que mais lhe interessa, seja na área da educação ou saúde, seja em Chaves ou em Verín. E poder usufruir sem ter de mudar a residência”, salienta.

Para isso, frisa, é preciso que os governos de Lisboa e de Madrid criem “esse estatuto especial para o território”. “É um caminho que se vai construindo”, sublinha.

Estes poderão ser, de acordo com António Cabeleira, passos que se vão dando até à concretização do sonho de uma Europa “verdadeiramente sem fronteiras” e em que “os cidadãos circulam livremente e usufruem em pleno daquilo que a Europa lhes pode oferecer”.

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