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Cheias levaram Mondego a invadir Montemor-o-Velho em 2001

O concelho de Montemor-o-Velho, distrito de Coimbra, sofreu em 2001 o impacto das maiores cheias registadas nas últimas décadas no Baixo Mondego, com a maior inundação desde que o rio foi regularizado no início da década de 1980.

As cheias do fim de semana de 27 e 28 de janeiro ocorreram em resultado de “uma precipitação intensa e prolongada que culminou com o rebentamento dos diques, extravasando [o rio Mondego]do leito central e inundando campos e povoações”, lê-se na tese de mestrado de Paulo Palrilha, o então delegado distrital da Proteção Civil, atual comandante dos Bombeiros Sapadores de Coimbra.

Na tese, intitulada “As cheias no Baixo Mondego no ano hidrológico 2000/2001 – avaliação e perceção ao risco de inundação”, Paulo Palrilha avalia as causas e consequências da catástrofe que foi potenciada pelo rebentamento dos diques do leito central do rio Mondego, o primeiro dos quais, junto à localidade de Casais, chegou, segundo relatos da época, a pôr em perigo um dos pilares do viaduto da autoestrada A1.

No estudo, o autor assinala como causa das cheias a precipitação acumulada ao longo de três meses e mais intensa em janeiro e uma “precipitação excecional” ocorrida naquele fim de semana na zona adjacente à albufeira da barragem da Aguieira, com valores habitualmente registados em intervalos de 75 a 150 anos, afirmação corroborada por um documento da Direção dos Serviços de Recursos Hídricos do Instituto da Água.

No texto do documento, assinado por Rui Rodrigues, Cláudia Brandão e Joaquim Pinto da Costa, lê-se que, na região de Coimbra, a “excecionalidade da acumulação de precipitação em janeiro atingiu um valor centenário”. Reportando a um período de 24 horas, entre 26 e 27 de janeiro de 2001, os autores assinalam a concentração de valores elevados de precipitação junto a áreas próximas das barragens da Agueira e Fronhas (no rio Alva, afluente do Mondego), que “criaram um rápido afluxo de caudal às respetivas albufeiras”.

Aquando do rebentamento do primeiro dique do leito central do Mondego, na madrugada de sábado, dia 27, o caudal do rio no açude-ponte de Coimbra situava-se nos 1.700 metros cúbicos por segundo (m3/s), mas chegou a atingir um máximo instantâneo de 1.910 m3/s, “com efeitos catastróficos no Baixo Mondego, principalmente ao nível da agricultura, infraestruturas e equipamentos”, lê-se num artigo de Silvia Louro e Luciano Lourenço sobre o comportamento hidrológico do rio Mondego perante valores de precipitação intensa em Coimbra, publicado em 2005 na revista Territorium.

No texto, os autores definem as cheias de 27 de janeiro como a situação “mais grave” desde que o caudal do rio foi regularizado (após a construção, em 1982, da barragem da Aguieira), assinalando que sem aquela infraestrutura o caudal natural seria de cerca de 3.000 m3/s no mesmo local.

No entanto, os investigadores afirmam que, com a regularização do rio, perdeu-se, entre a população, “a cultura do risco de cheias”, e comparam o sucedido com outra cheia, mais de 50 anos antes, em 1948, com um caudal natural estimado de 4.000 m3/s, “que fora muito mais excecional que o de 2001” e que teve consequências “bem menos nefastas”.

A jusante de Coimbra, com o rebentamento dos diques, as águas do Mondego inundaram povoações da margem esquerda, como Ribeira de Frades ou Pereira e, na margem direita, a própria vila de Montemor-o-Velho viu a água subir mais de um metro, afetando casas, explorações agrícolas e estabelecimentos comerciais. Dezenas de vias de comunicação, algumas longe do canal central do rio, como a ligação entre a Figueira da Foz e Coimbra pelo então IP3 (hoje autoestrada A14) foram cortadas.

A chamada ponte rodoviária das Lavadeiras, na ligação entre Montemor-o-Velho e Soure, no acesso mais direto à estação ferroviária de Alfarelos, ruiu com a força das águas na manhã de 28 de janeiro.

A localidade de Ereira, que viveu anos a fio transformada numa ‘ilha’ no vale do Mondego, antes das obras de regularização, voltou a ficar isolada (em alguns locais a água atingiu quase dois metros), várias pessoas foram retiradas das suas casas e a população que ficou nas zonas mais altas teve de ser abastecida através de embarcações dos fuzileiros e dos bombeiros.

Na sua tese, o comandante Paulo Palrilha ‘ouviu’ vários presidentes de Junta reclamarem a conclusão das obras do projeto hidroagrícola do Baixo Mondego, mas também a manutenção das infraestruturas existentes, como forma de prevenir novas inundações.

Mais de 15 anos volvidos, o autarca de Montemor-o-Velho, Emílio Torrão, insiste nessa necessidade, pouco tempo depois de o concelho [fevereiro de 2016]ter voltado a sofrer o efeito das cheias, embora de dimensão muito menor às registadas em 2001, sem rebentamento de diques: “Desta vez, a obra portou-se bem. Mas, se não houver manutenção e não se concluírem as obras e intervenções necessárias, isto vai voltar a acontecer”, avisa.

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