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Chissano recorda “bom relacionamento” entre Portugal e Frelimo na transição

O governo de transição que preparou a independência de Moçambique foi caracterizado por “um bom relacionamento” entre a Frelimo e Portugal, mas foi necessário rigor para impedir que o processo descarrilasse, disse à Lusa o ex-Presidente moçambicano Joaquim Chissano, numa entrevista em que fala sobre as relações internacionais no contexto da Guerra Fria.

“Foi um momento muito bom, porque conseguimos trabalhar em consonância com a parte portuguesa que estava ainda a representar Portugal em Moçambique, na pessoa do alto-comissário, almirante Vítor Crespo, e trabalhámos num bom relacionamento, porque ele tinha que representar a soberania do Estado, que ainda era o Estado português”, relata Chissano, indigitado pela Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) primeiro-ministro do governo de transição, que integrava também representantes do Estado português.

Resultado do Acordo de Lusaca, assinado pelas duas partes a 07 de setembro de 1974, recorda Chissano, o governo de transição cuidou muito bem da desmobilização e regresso a casa dos militares portugueses, substituição dos administradores coloniais em todo o território moçambicano e da transferência formal do poder de Portugal para Moçambique, no dia da independência, a 25 de junho de 1975.

“Trabalhávamos em harmonia e falávamos quase a mesma linguagem, até dois dos que tinham sido nomeados por Portugal [para o governo de transição]declararam ser moçambicanos e trabalhámos com eles durante a maior parte do governo de transição, sabendo que eles optariam por ficar em Moçambique, como moçambicanos”, recorda Joaquim Chissano, que foi o primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano após a independência e mais tarde chefe de Estado, entre 1986 e 2005.

Apesar da cordialidade que pautou a relação entre os representantes da Frelimo e de Portugal, assinala Joaquim Chissano, o processo teve de ser conduzido com rigor, para evitar fricções, como a tentativa de impedir a independência do país, protagonizada por um grupo de colonos portugueses, que ocupou por algumas horas a principal emissora de rádio do território, a Rádio Clube de Lourenço Marques, atual Rádio Moçambique, gerando uma onda de revolta no seio da população local.

“Havia ainda essas diferenças entre os próprios brancos [sobre o rumo de Moçambique], era um momento em que era preciso trabalhar com muito rigor para a mudança das mentalidades, para que não houvesse fricções”, recorda.

Sobre o facto de a Frelimo ter imposto no Acordo de Lusaca que fosse reconhecido por Portugal como “único representante legítimo do povo moçambicano”, rejeitando a proposta de um referendo, e ter impedido a participação de outras forças nas negociações com Portugal, Chissano considera que a organização já era abrangente e que os movimentos que reivindicaram a sua presença no processo eram fictícios.

“A Frelimo já era abrangente, o que nós sabemos é que quando se deu o 25 de Abril [a Revolução em Portugal], houve uma tentativa de se criarem partidos fictícios, que não tinham nenhuma história”, declarou Chissano.

O surgimento de organizações que reivindicavam o direito de participação nas discussões sobre o futuro do território, prossegue o antigo chefe de Estado moçambicano, era uma tentativa de alguns setores da administração colonial portuguesa de impor um referendo antes da independência.

“Estava óbvio que era uma tentativa para fazer valer a ideia do referendo, para perguntar ao povo moçambicano se queria a independência ou não, e a resposta já tinha sido dada, não só pela luta armada, mas também por três ou quatro dias de revoltas aqui em Maputo ou de reivindicação da independência imediata”, frisa.

Como resultado do bom clima reinante durante o governo de transição, Moçambique alcançou, finalmente, a sua independência em 1975, acabando com 500 anos de presença colonial, numa cerimónia em que os militares moçambicanos acabaram festejando com tiros para o ar.

“[O dia da independência] foi um momento de grande alegria, mas ao mesmo tempo de um pouco de drama, porque estávamos, nós como responsáveis, apreensivos, porque podia haver uma bala perdida que caísse em cima de alguém”, lembra o dirigente político

“Aquilo parecia uma guerra mas não era uma guerra, era um fogo de artifício com armas e com balas verdadeiras, mas deu um espetáculo bonito”, recorda ainda Joaquim Chissano sobre o ambiente que se viveu em Maputo no dia da proclamação da independência.

O Estado moçambicano criado em 1975 é “uma criança que nasce com inimigos”, nomeadamente a África do Sul e a Rodésia, e que enfrenta a hostilidade de países como os EUA, afirma eJoaquim Chissano. “É uma criança que nasce já com inimigos, quero falar da África do Sul, sobretudo, e da Rodésia, mas de toda a maneira, isso insere-se numa conjuntura internacional mais vasta onde havia a guerra fria”, enfatiza Chissano, primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique e mais tarde chefe de Estado, em entrevista à Lusa a propósito dos 40 anos da independência de Moçambique, que se assinalam a 25 de junho.

Segundo Chissano, alguns países que deviam abraçar a causa da independência dos povos, como os Estados Unidos, trataram Moçambique como inimigo por causa da aliança do novo Estado com a ex-URSS e fecharam os olhos à agressão movida pelo regime do “apartheid” em retaliação ao apoio de Maputo ao Congresso Nacional Africano (ANC) na África do Sul, e numa ação justificada pela orientação marxista-leninista assumida pela Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique).

“Pensávamos nós, quando crianças ou jovens, que os Estados Unidos haviam de ser o país que nos ia dar mais apoio, mesmo antes de começar a luta armada, e sinais disso até apareceram, porque a Fundação Ford dos Estados Unidos financiou-nos a construção da primeira escola secundária da Frelimo em Dar es Salam, antes do começo da luta armada, em 1962”, salienta Chissano.

O antigo Presidente moçambicano, que aderiu à Frelimo em 1963, diz que “os Estados Unidos da América aliam-se a esses estados vizinhos que eram inimigos da independência, porque poderia Moçambique servir de mau exemplo, segundo eles, para os seus povos lá e não queriam que houvesse um Estado viável dirigido por negros”.

Segundo o antigo Presidente moçambicano, a agressão que o país sofreu logo após a independência, impôs que a Frelimo se virasse para a consolidação da soberania do Estado, em detrimento do respeito dos direitos e liberdades individuais. “Nós libertámos o país, viemos para a independência, dentro de uma luta que precisava que a vitória tinha que ser consolidada, porque já havia forças do contra e essas forças eram dirigidas por pessoas com muita experiência, que poderiam causar grandes danos, se não houvesse uma firmeza, se não houvesse um poder forte, uma disciplina forte”, considera Chissano

“Não pode vir dizer ‘olha é uma democracia, há uma liberdade e tal’, quando há gente a atacar, a Rodésia a atacar, a recrutar, a treinar pessoas para se oporem à independência de Moçambique por via armada, então, não é o momento de se falar assim de tantas liberdades, esse momento é de consolidação da independência”, prossegue.

Por outro lado, assinala Joaquim Chissano, as liberdades não deviam ser ditadas por outras pessoas, tinham de ser inseridas no seio de um projeto do próprio povo e, para isso, o país tinha de se desembaraçar das forças que estavam concentradas nos países vizinhos. “Eram forças comandadas por outras forças saudosistas, que estariam mesmo em Portugal ou noutras partes do mundo, ainda com a ideia de regressar. Quando foi do 07 de setembro [data dos Acordos de Lusaca, que cria em 1974 o Governo de transição até à independência]pessoas fugiram para a África do Sul e disseram que iam para voltar e, de facto, passados seis meses mais ou menos, já havia ataques, era esse o meio de regresso, que eles queriam. Então não se abrem as portas assim sabendo de tudo isso”, diz Joaquim Chissano.

Após os primeiros ataques, o país mergulhou numa guerra civil durante 16 anos, opondo, por um lado, o Governo da Frelimo, e, por outro a guerrilha da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), fundada com o apoio da Rodésia e da África do Sul do tempo do “apartheid”. O conflito foi encerrado a 04 de outubro de 1992 com a assinatura do Acordo Geral de Paz entre o Governo moçambicano e a Renamo.

 

* O presente texto é uma republicação após ter sido editado pela primeira vez no site da Lusa Dias da Independência

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