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Companhia de Castro Daire leva pelo mundo personagens criadas na serra

Há mais de 20 anos que o Teatro Regional da Serra do Montemuro leva as personagens que cria na pequena aldeia de Campo Benfeito, no concelho de Castro Daire, até palcos de todo o país e do estrangeiro.

“É um exemplo de que no interior também se fazem projetos muito interessantes. Numa aldeia serrana conseguiu-se criar uma companhia de teatro com qualidade, já reconhecida internacionalmente”, afirma à agência Lusa o vereador da Cultura da Câmara de Castro Daire, Rui Braguês.

Na opinião do autarca, “de ano para ano vê-se a evolução desta companhia de teatro, que tem levado o nome do concelho pelo país fora e também pelo estrangeiro”.

A companhia começou a ter uma atividade regular em 1990, de forma amadora, mas “com uma programação bem definida, com muita pesquisa e com um forte trabalho com a comunidade”, explica o seu diretor artístico, Eduardo Correia.

Em Campo Benfeito, já nos anos 50 do século XX, um padre tinha dinamizado iniciativas teatrais. Na década de 1980, um grupo de jovens começou a representar a aldeia num festival de crianças promovido por uma organização que tinha um projeto para dinamizar o território a norte de Castro Daire.

“Enquanto todas as outras aldeias participavam com crianças da primária, nós já tínhamos mais idade”, recorda Eduardo Correia.

Esta particularidade despertou a atenção do inglês Graeme Pulleyn, voluntário dessa organização, que tinha formação teatral, e que começou a trabalhar com os jovens de Campo Benfeito.

Com Graeme Pulleyn começaram “a desenvolver projetos um bocadinho mais sérios, mas sempre de uma forma muito experimental”, tendo sido aqueles primeiros anos o seu período de formação.

“Entretanto, uma companhia inglesa soube da nossa existência, veio até nós, propôs-nos trabalharmos em conjunto alguns projetos e, no meio deles, surgiu o espetáculo ‘Lobo-Wolf’, em 1995”, conta o responsável.

Para a companhia, o ano de 1995 foi um marco: “O espetáculo ganhou uma dimensão que foi muito para além do regional”, tendo circulado pelo país e pelo estrangeiro. Este foi também o ano de profissionalização da companhia, que pediu o seu primeiro apoio estatal.

Mais de 20 anos depois, a companhia já ronda as 70 produções e tem um orçamento anual entre os 220 e os 230 mil euros, entre apoios da Direção-Geral das Artes (130 mil euros) e do município de Castro Daire, e receitas de venda de espetáculos e de bilheteiras.

Para Eduardo Correia, a chave do sucesso é “a grande humildade, o rigor das pessoas e a noção da sustentabilidade”.

“Não entramos em loucuras, temos muito presente o passo que temos de dar e até onde podemos ir”, frisa.

A companhia tem uma estrutura de seis pessoas, cujas funções se multiplicam, começando por Eduardo Correia, que é diretor artístico e ator.

Há mais dois atores, Paulo Duarte e Abel Duarte: o primeiro também trata da contabilidade e de toda a questão técnica relacionada com a luz, o segundo tem a responsabilidade da sonoplastia e faz a direção de cena.

A Paula Teixeira cabe toda a produção da companhia e Carlos Cal, além de operar os espetáculos, tem a responsabilidade da construção cenográfica. Há ainda Conceição Almeida, responsável pelo espaço da companhia, por fazer a manutenção dos figurinos, de alguns cenários e dos adereços.

“Somos seis pessoas, mas cada projeto tem pessoas diferentes que vêm para áreas de criação, desde a cenografia à direção musical, passando pelos figurinos. Há um leque de pessoas que colaboram connosco nos espetáculos que criamos”, realça Eduardo Correia.

Apostada na itinerância, a companhia desenvolve muito trabalho com as comunidades, partindo de grupos organizados como associações, ranchos folclóricos ou grupos corais.

“Somos uma companhia claramente de itinerância, porque a nossa aldeia tem apenas cerca de 50 habitantes. Ou seja, fazemos lá o festival Altitudes e pequenas temporadas para as escolas, e, depois, a nossa vida é andar pelo país e pelo estrangeiro”, explica o ator e diretor.

Mais do que uma limitação, a criação a partir de um local perdido no meio da serra é vista como uma vantagem.

“Como estamos isolados, gostamos de experimentar e de chamar as pessoas para que fiquem connosco. Temos só este núcleo de seis pessoas, porque sabemos que pontualmente temos outras pessoas, que trazem conhecimentos e nos abrem sempre um horizonte”, sublinha.

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