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Entroncamento duplica população e torna-se “dormitório” de Lisboa

Em três décadas, o Entroncamento, o segundo concelho mais pequeno do país, praticamente duplicou a sua população, muito devido à pendularidade facilitada pelo comboio e ao preço mais baixo da habitação, tornando-se, apesar da distância, num “dormitório” de Lisboa.

“Há muitas centenas de pessoas a deslocarem-se para Lisboa diariamente. Saem de madrugada e regressam ao fim do dia. Durante décadas, muitas vezes uma vida”, disse à agência Lusa Manuel Fernandes Vicente.

Professor de matemática no Entroncamento, o autor e jornalista não tem dúvida de que o forte crescimento demográfico num pequeno concelho interior marcou, de forma impressiva, um lugar onde o “enraizamento” das pessoas “é praticamente nulo”.

Rafael Domingos, arquiteto paisagista na Câmara do Entroncamento e membro da Associação Portuguesa de Genealogia, corrobora a convicção de que a forma como se constituiu a população da cidade não criou raízes, embora acredite que se possa estar a assistir a um momento de mudança.

Apesar de se situar a uma centena de quilómetros de Lisboa, o Entroncamento (que traz no nome o facto de ser, desde 1864, o ponto de encontro da Linha férrea do Norte com a do Leste) acabou por acolher muitos dos que, vindos das Beiras e do Alto Alentejo, aqui fixaram residência, deslocando-se diariamente de comboio para trabalharem na capital.

Com o aumento do desemprego e o efeito da crise a sentir-se também no custo da habitação nos anéis mais próximos da Área Metropolitana de Lisboa, a situação pode estar a mudar, notando Rafael Domingos uma capacidade crescente do concelho para se “personalizar”.

Manuel Fernandes Vicente concorda com o impacto que podem ter apostas como a criação do Museu Nacional Ferroviário (inaugurado em maio de 2015), uma “expectativa de gerações que parecia escapar sempre entre os dedos” e que “veio dar uma dinâmica nova”, sobretudo pela atração de um significativo fluxo turístico.

Também comum é a opinião de que a linha seguida nos vários mandatos autárquicos, mesmo que com lideranças diferentes, permitiu uma modernização e uma aposta coerente na criação de infraestruturas, nomeadamente desportivas, que melhoraram a qualidade de vida no concelho.

“Está a conseguir apagar a imagem de dormitório, que ainda se mantém um pouco”, afirmou Rafael Domingos, sublinhando que muitos dos que deixaram de trabalhar em Lisboa passaram a fazê-lo em concelhos vizinhos como Torres Novas ou Tomar.

Lembrando que na origem da esmagadora maioria da população do concelho estão ferroviários (as oficinas da EMEF chegaram a ter milhares de trabalhadores) e militares (com o forte impacto da Manutenção Militar), que tenderiam a regressar às suas terras, o estudioso da origem, evolução e disseminação das família, ele próprio neto de ferroviários, diz à Lusa que, “teoricamente”, o facto de os filhos e os netos terem nascido no concelho “leva a uma maior identificação, à criação de laços e raízes”.

Com uma área de 13,8 quilómetros quadrados (só S. João da Madeira, com 8,1 quilómetros quadrados é mais pequeno), o concelho do Entroncamento viu a população residente crescer dos 11.976 em 1981 para os 20.206 em 2011, apresentando uma densidade populacional de 1.464 habitantes por quilómetro quadrado, substancialmente acima dos 115 da média nacional.

Tendo começado como uma simples estação ferroviária (por perto existiam apenas os lugarejos de Vaginhas e Casal das Gouveias), o Entroncamento foi desanexado, como freguesia, de Torres Novas e Vila Nova da Barquinha em 1926, elevado a concelho em 1945, sendo cidade desde 1991, com a criação de uma segunda freguesia em 2003, fruto do crescimento populacional e habitacional.

Em 2004, antes da crise, era o concelho do distrito de Santarém com maior poder de compra, referindo Manuel Fernandes Vicente a elevada escolaridade das pessoas que nasceram e cresceram no concelho, também esse um fator que foi favorecendo a pendularidade e a deslocação para a cintura de Lisboa.

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