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Estarreja mudou com “contrapartidas” de uma incineradora que não se fez

As “contrapartidas” de uma incineradora que nunca se fez mudaram Estarreja, que há 30 anos trouxe para a rua o debate sobre os resíduos perigosos, que se alastrou ao País.

Durante décadas associado aos riscos do seu complexo químico e à contaminação de solos e águas por metais pesados, o município aposta hoje no turismo da Natureza, explorando a biodiversidade pelos percursos do BioRia.

A cidade também está diferente, com a requalificação urbana de edifícios emblemáticos como a Biblioteca e o Cine Teatro, que vieram trazer ao centro urbano novas vivências culturais.

São mudanças que se devem em larga medida às “contrapartidas” conseguidas por Vladimiro Silva, que presidia à Câmara pelo PS na década de 1990, para “dar a cara” por uma incineradora que ninguém queria receber e acabou por não se fazer, muito devido à pressão de ativistas ambientais liderados por Miguel Oliveira e Silva.

O Plano Nacional de Resíduos, do Governo de Cavaco Silva, previa para Estarreja apenas uma estação de transferência e a incineradora dedicada ficaria em Sines, mas o autarca socialista resolveu convencer o Executivo central a localizar em Estarreja a incineradora.

“Havia as lamas do Complexo Químico e a contaminação do Lago do Laranjo, por mercúrio e arsénio. Não havia que iludir a questão e Estarreja tinha de fazer parte da solução”, diz Vladimiro Silva.

O autarca transmitiu à então ministra do Ambiente, Teresa Patrícia Gouveia, que Estarreja estava disponível para receber a incineradora, em vez da estação de transferência, que não resolvia o problema instalado e apenas criava 12 postos de trabalho.

O que o autarca não contava era com o surgimento de um movimento de contestação local, o “Esta é Régia”, que procurou mobilizar a população contra a vinda da incineradora e aproveitou a campanha eleitoral para ganhar mediatismo.

Miguel Oliveira e Silva, hoje professor no Departamento de Eletrónica da Universidade de Aveiro, foi o rosto dessa contestação.

“Começou por ser um grupo de amigos. Promovemos debates para confrontar opiniões e transmitir que não devíamos ficar passivamente à espera do que iria acontecer”, recorda.

Na campanha eleitoral de 1995 aproveitam a passagem por Estarreja de figuras políticas como Jorge Sampaio, Paulo Portas e Pacheco Pereira para organizar manifestações que dão visibilidade à causa, marcando presença com bandeiras pretas.

Vladimiro Silva reagiu, reclamando “condições” prévias ao Governo, para Estarreja aceitar a incineradora: a retirada das lamas tóxicas, mas também a recuperação do Cine Teatro e da Biblioteca “porque havia que melhorar a imagem negativa de Estarreja”, associada à indústria química.

“Foi também nessa altura, com Mira Amaral como ministro da Indústria, que expliquei que não podíamos ter só este tipo de fábricas, e a autarquia recebeu 82 hectares que eram da Quimigal, na altura do Estado, para fazer o Ecoparque”, explica.

Tudo isso se concretizou, menos a incineradora, por pressão dos ambientalistas.

“Vladimiro Silva achava que a incineradora era como uma prenda de aniversário para Estarreja, o que reforçou a nossa determinação para lutarmos contra isso. A nossa atitude não era empurrar para o quintal do vizinho, mas sim discutir a sério o problema dos resíduos industriais perigosos e ver as melhores soluções existentes”, garante Miguel Oliveira e Silva.

Vladimiro Silva tem outra leitura e diz que o objetivo foi derrubá-lo politicamente, o que Oliveira e Silva nega, lembrando que foi convidado para integrar listas de diferentes partidos, que nunca aceitou, para não contaminar a discussão.

Estarreja conseguiu as “contrapartidas” exigidas pelo autarca socialista, que depois veio a perder a Câmara para o PSD, mas a incineradora ficou pelo caminho. O seu sucessor recusou-a e José Sócrates “enterrou” o projeto, defendendo a coincineração nas cimenteiras.

Vladimiro Silva e Miguel Oliveira e Silva convergem num ponto: o problema dos resíduos perigosos está por resolver.

“Teoricamente passaram a ser tratados, mas não o são. É tudo depositado de qualquer maneira, e há muita coisa que é exportada com custos brutais, mas com lucros enormes para quem se dedica a isso”, critica Vladimiro.

Miguel Oliveira e Silva corrobora: “existe o centro de tratamento de resíduos industriais perigosos na Chamusca, que faz a estabilização e neutralização de alguns tipos de resíduos perigosos, mas outros continuam a não ser tratados e alguns são exportados”.

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