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Fecho da Opel despediu 1.100 e transformou vida em Azambuja

O encerramento da fábrica da Opel de Azambuja, em 2006, deixou no desemprego mais de 1.100 trabalhadores e modificou a vida social e económica deste concelho ribatejano que, uma década depois, ainda lamenta a perda da unidade fabril.

Considerada a segunda maior fábrica de automóveis em Portugal, a Opel de Azambuja – pertencente à multinacional General Motors – fechou as suas portas a 21 de dezembro de 2006, depois de 42 anos de laboração.

Os responsáveis pela fábrica de Azambuja justificaram o encerramento desta unidade com o facto de a produção de cada modelo Combo ficar mais cara em 500 euros face à da unidade espanhola de Saragoça.

O fecho desta unidade fabril deixou no desemprego mais de 1.100 trabalhadores, dos quais 233 eram residentes no concelho de Azambuja.

Segundo dados da Câmara Municipal local, laboravam também na fábrica trabalhadores residentes em concelhos como o do Cartaxo, Vila Franca de Xira, Alenquer, Santarém, Salvaterra de Magos, Almeirim, Cadaval, Benavente e Coruche.

Além destes cerca trabalhadores foram afetadas mais de 600 empresas que prestavam serviços à Opel em regime de ‘outsourcing’, como serviços de refeitório e limpeza e os funcionários de empresas subsidiárias, como as de logística.

Joaquim Ramos (PS), que em 2006 era presidente da Câmara Municipal de Azambuja, recorda à agência Lusa a “angústia” com que se viveram os primeiros anos depois do encerramento da fábrica.

“Era um ícone da região. Além de ser o maior empregador, tinha um leque salarial acima da média. Até para os dias de hoje”, refere.

O antigo autarca assegura que o executivo municipal de então “fez tudo o que estava ao seu alcance” para tentar “travar o encerramento da fábrica”, mas que tal não foi possível.

“Tive várias reuniões com a direção da Opel e com o Governo. Depois de ser um facto consumado, os trabalhadores foram sempre acompanhados pelos serviços sociais da Câmara”, aponta.

Joaquim Ramos refere que cerca de quatro anos depois “a situação estava relativamente sanada”, mas ressalva que “será uma chaga que fica sempre em aberto”.

“A maior parte dos antigos trabalhadores teve de mudar de área e habituar-se a outro padrão de vida”, admite.

Esse foi o caso de Rui Mendonça, antigo supervisor da secção de montagem, que hoje é gerente de um alojamento rural na Serra da Estrela.

“Assim que a fábrica fechou decidi mudar de área. No entanto, nunca me irei esquecer, porque a Opel foi uma escola gigantesca. Ajudou-me a construir o meu futuro. Hoje, tanto eu como os meus familiares, não conseguimos comprar um automóvel que não seja Opel”, conta.

Já José Gonçalves, que trabalhava na linha de pintura, recorda o momento em que ali chegou o último carro para pintar: “Eu nunca mais me esqueço da imagem de ver homens, que tinham idade para serem meus pais, sentados na linha a chorar, ao pé de um carro que tinha um letreiro a dizer que seria o último”, diz emocionado.

Depois do fecho da fábrica, onde trabalhou cerca de 20 anos, José Gonçalves conta que nunca mais conseguiu estabilizar: “Foi uma machadada na minha vida profissional. Sinto que tinha um futuro pela frente”.

A mágoa é partilhada por Armando Martins, antigo chefe da secção de pintura, que lançou recentemente um livro sobre os últimos meses de funcionamento da fábrica e no qual deixa “duras críticas” à forma como foi gerido o processo pelas estruturas sindicais e pela Comissão de Trabalhadores.

“Creio que existiram exageros por parte dos sindicatos, que não foram flexíveis. A imagem que passava era de um constante braço de ferro entre os trabalhadores e a administração”, afirma o antigo trabalhador, que considera ter sido a postura do sindicato a acelerar o processo de encerramento.

No entanto, a ideia é totalmente rejeitada pelo sindicalista Navalha Garcia, do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente do Centro-Sul e Regiões Autónomas, que acompanhou todo o processo.

“Nós tínhamos um diálogo muito forte com a administração e conseguíamos acordos de ano a ano. Não estávamos num processo reivindicativo. Tínhamos era de contrariar a ideia da deslocalização. Fizemos tudo aquilo que estava ao nosso alcance”, assegura.

Uma década depois do encerramento da fábrica da Opel os efeitos “ainda são bastante visíveis”, pelo menos esse é o entendimento do presidente da Associação do Comércio, Indústria e Serviços do Município de Azambuja (ACISMA), Daniel Claro.

“Era a única âncora de desenvolvimento, atração e afirmação do concelho. Atualmente é um concelho ligado à logística, mas estamos a falar de uma mão-de-obra flutuante e mal paga. Hoje muita gente passa na Azambuja, mas pouca gente cá vem. É um concelho economicamente desertificado”, resume.

Por seu turno, o atual presidente da Câmara Municipal, Luís de Sousa, refere que em termos sociais a autarquia já não nota tanto os efeitos do fecho da Opel, mas alerta que é um processo que está longe de estar concluído.

“O Estado está a dever à Câmara da Azambuja 950 mil euros. Andamos há muitos anos à espera e por isso iremos interpor uma ação judicial”, afirma.

Em 2008, a GMP pagou uma indemnização de 17,7 milhões de euros ao Estado português como compensação pelo encerramento da fábrica da Opel de Azambuja, uma vez que não cumpriu o contrato que tinha estabelecido de se manter em Portugal por mais tempo.

No entanto, dessa verba que o Estado recebeu da GMP ficou estabelecido que 908 mil euros seriam transferidos para as contas da autarquia, montante referente à isenção de impostos municipais de que a Opel beneficiou entre 1996 e 2006, nomeadamente com a derrama.

“É uma verba que faz muita falta ao município. Podíamos ter empregado esse dinheiro na Educação ou na reparação das estradas, por exemplo, e não ter sofrido tantas dificuldades financeiras”, observa.

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