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Fernando Ruas e um “reinado” de 24 anos na Câmara de Viseu

Eleito pela primeira vez em 1989, o social-democrata Fernando Ruas cumpriu um duradouro “reinado” de 24 anos na Câmara de Viseu, período durante o qual se preocupou em fortalecer a coesão territorial, tendo por base uma “rigorosa gestão financeira”.

Motivado pela vontade de contribuir para o desenvolvimento da sua terra, o economista resolveu candidatar-se à presidência da Câmara numa altura em que os indicadores “eram significativamente mais baixos e careciam de ser melhorados”.

“Era necessário garantir às pessoas condições essenciais, como o abastecimento de água, a coleta e o tratamento de esgotos, a recuperação de edifícios escolares, o apoio social, as redes de comunicações, o reforço do ensino superior, a requalificação e ampliação dos parques empresariais, bem como uma nova dinâmica cultural”, lembra à agência Lusa.

O seu slogan “levar o Rossio às aldeias” fazia todo o sentido, mas “também na cidade se registavam deficiências básicas, por exemplo, na pressão da água, que no verão não chegava aos pisos superiores de alguns imóveis”, acrescenta.

Segundo Fernando Ruas, atualmente deputado do Parlamento Europeu, foi preciso um “vastíssimo conjunto de investimentos”, acompanhado de “uma rigorosa gestão financeira”.

“Foi fundamental a efetiva descentralização, tanto de competências, como de recursos financeiros, para as juntas de freguesia, que levaram a cabo uma obra notável”, frisa, lembrando a importância de ter aproveitado incentivos em todos os quadros comunitários de apoio.

Em 24 anos, o social-democrata concretizou investimentos que considera decisivos para o progresso do concelho, de que são exemplo o fecho da circunvalação, a construção das circulares sul e norte, o rasgar da Avenida da Europa, a requalificação da maioria das ruas e praças do centro histórico, a requalificação ambiental do rio Pavia e suas margens, a Quinta da Cruz e o Centro Interpretativo do Quartzo.

Fernando Ruas destaca, também, “a consecução de um nível europeu no atendimento às populações relativamente ao abastecimento de água e ao tratamento de esgotos, um trabalho ciclópico que abrangeu todas as freguesias, passando de cerca de 35% de cobertura para 90%”.

Nas autárquicas de 2013, Fernando Ruas, que era também presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses e tinha um historial de votações expressivas, viu-se impedido de se recandidatar devido à lei de limitação de mandatos, numa altura em que projetos não lhe faltavam.

“O trabalho de um autarca que se preze está sempre por acabar”, realça, acrescentando que “manter o ‘status’ de Viseu era uma tarefa decisiva e acrescentar valor um desafio”.

O deputado europeu lembra alguns investimentos que não teve oportunidade de inaugurar, mas que deixou em curso, tais como “a ETAR (Estação de Tratamento de Águas Residuais) Viseu Sul, a Escola Viseu Estrela, a reabilitação de inúmeros edifícios classificados ou a classificar no centro histórico e um vasto rol de obras” nas freguesias.

Em estudo estavam vários projetos, entre os quais a ampliação do Parque Empresarial de Coimbrões, o arranque da estação ferroviária na zona do Viso para a ligação de Viseu à Linha da Beira Alta, a construção da barragem no Vouga e o Centro de Artes, “cuja primeira fase do projeto ficou pronta”.

Depois de tantos anos a dirigir-se diariamente para a Câmara, Fernando Ruas assegura à agência Lusa que nunca mais lá entrou.

Questionado se equaciona, nas próximas autárquicas, candidatar-se ao lugar que ocupou durante mais de duas décadas, afirma: “É algo que não consta no rol das minhas preocupações mais próximas e, por conseguinte, não tenho resposta para isso”.

A defesa acérrima das populações e de quem as representa, concretamente os presidentes de Junta, foi uma das marcas dos mandatos de Fernando Ruas, levando-o mesmo a tribunal no chamado “caso das pedradas”.

O então autarca chegou a ser condenado a uma pena de multa pelo Tribunal de Viseu por instigação pública ao crime, devido a afirmações proferidas numa Assembleia Municipal de 2006, mas posteriormente foi absolvido pelo Tribunal da Relação de Coimbra.

Nessa reunião, onde o presidente da Junta de Freguesia de Silgueiros fez queixas dos vigilantes da natureza que o autuaram por contraordenação ambiental, Fernando Ruas afirmou: “Arranjem lá um grupo e corram-nos à pedrada. A sério, nós queremos gente que nos ajude e não que obstaculize o desenvolvimento”.

A Fernando Ruas sucedeu Almeida Henriques, ex-secretário de Estado da Economia e Desenvolvimento Regional, que tinha sido presidente da Assembleia Municipal de Viseu durante dois mandatos.

Na opinião do autarca, “com a adesão à CEE, o país teve uma importante fase de infraestruturação financiada por fundos comunitários, que no concelho de Viseu tem o rosto do doutor Fernando Ruas”.

“O seu legado na infraestruturação básica do concelho é muito positivo e constitui um fator importante para que hoje um novo ciclo se possa concretizar: o ciclo da competitividade, da cultura e da inclusão”, frisa.

Para Almeida Henriques, “os territórios precisam de ‘hardware’, mas precisam também de ‘software’” e “esse é o desafio do novo ciclo”.

José Junqueiro, que liderou a Federação Distrital de Viseu do PS durante quase todo o “reinado” de Fernando Ruas, reconhece que o concelho “evoluiu muito nestas últimas décadas”, quer devido ao trabalho desenvolvido pelo presidente de Câmara, quer pelos “governos do PS, porque foram feitos investimentos estruturantes ao nível da saúde, da educação, das acessibilidades e dos equipamentos sociais”.

“Estes anos fazem a diferença com o passado, graças ao esforço do autarca, mas também ao esforço da administração central, que não regateou meios para poder ajudar no desenvolvimento do concelho”, sublinha.

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