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Fumeiro transformou-se na pujança económica de Vinhais

No rigoroso inverno transmontano, há quem faça centenas de quilómetros ao extremo nordeste para comprar, em Vinhais, o fumeiro mais caro de Portugal e o único com cinco peças certificadas.

O “bem-vindo à capital do fumeiro” resume a pujança económica desta atividade que emprega cerca de 300 pessoas, 11% da população ativa do concelho com pouco mais de 9.000 habitantes.

Há 30 anos, a riqueza endógena existia já, mas apenas para consumo doméstico e com base numa economia local em que a matança do porco era um ritual comunitário.

Atualmente, há um matadouro, o movimento anual é de seis milhões de euros, havendo milhares de clientes fixos, 80 produtores certificados, 20 pequenas fábricas, 70 unidades de transformação e 150 pocilgas licenciadas.

Carla Alves cresceu com este processo e contou à Lusa que há 21 anos ninguém acreditava nela quando, ainda na universidade, começou a dedicar-se à raça suína autóctone, o Bísaro.

Foi assim que começou o processo de reconhecimento da raça e a certificação do fumeiro que, para ser de Vinhais, tem de ter carne bísara e obedecer a um rigoroso caderno de encargos reconhecido e protegido pela União Europa.

Todo este processo garantiu dois ganhos, segundo Carla Alves, técnica da associação da raça e diretora da Feira do Fumeiro de Vinhais. “O Bísaro veio dar grande genuinidade e expressão ao fumeiro, mas a raça também ganhou, porque senão estava extinta”, afirmou.

O Bísaro, garantiu, tem contrariado a tendência de outras raças autóctones e tem aumentado anualmente, havendo já cinco mil porcas reprodutoras.

O presidente da Associação Nacional de Criadores de suínos da Raça Bísara, Domingos Fernandes, explicou à Lusa que “alguém se lembrou de fabricar o fumeiro como antigamente e a raça foi essencial”.

O Bísaro ainda garante subsídios da União Europeia por se tratar de uma raça nacional e protegida.

Tanto o porco como o fumeiro “têm criado emprego”, asseverou Domingos Fernandes, indicando que “pessoas que não trabalhavam estão agora três e quatro meses sem parar”.

Tudo começou há 36 anos com o desafio do então presidente da Câmara, Sobrinho Alves, às mulheres do concelho para venderem o que confecionavam em “meia dúzia” de barracas instaladas no largo da Escola Secundária, que se transformou numa feira anual, em geral em fevereiro.

Idalina Morais, de 76 anos, participa desde o início e lembra-se bem: “Tínhamos de trazer pelo menos cinco quilos de salpicões e as chouriças que pudéssemos, mas saía bem, vendíamos tudo”.

Eram “para aí 10 ou 12” mulheres a vender enchidos, lembra, e “dava jeito, esse dinheirinho”. Vestia os filhos, numa época em que a vida era pobre. E, ainda por cima, pagavam-lhe cinco contos (25 euros) por ir à feira.

Hoje, Idalina consegue mais proventos com o fumeiro do que com a pequena reforma que recebe.

Nos quatro dias da feira, há quem ganhe “entre seis a sete mil euros” e o certame atrai cerca de 50 mil visitantes, muitos organizados em excursões, sobretudo do Norte.

O Fumeiro de Vinhais é o mais caro. O quilograma do salpicão custa 40 euros e da chouriça 30, mas Graça Ferreira, de 63 anos, garante que “também é o melhor, não há nada que se compare”.

“Tenho clientes que nem sei de onde são. Só sei que já os conheço e vêm todos os anos procurar-me”, contou.

Simone Fernandes, filha dos proprietários de uma unidade de enchidos do concelho com 11 anos, fez o pai regressar da Suíça para abrir os Enchidos Aurélios, que dão hoje emprego a mais três pessoas.

Simone diz que “já se vendeu melhor” e que a crise levou a que nem todas as pessoas possam comprar um fumeiro tão caro, em que apenas um salpicão “vai para 12 euros”.

Mas uma família gastar 250 a 300 euros, nesta feira, é uma realidade que tem resistido à concorrência e mesmo à crise dos últimos anos.

Adosinda gerou dois novos postos de trabalho e o dela quando, há 25 anos, desempregada, criou a própria empresa, que faz fumeiro de Vinhais e de outros concelhos limítrofes, já que as regras destes enchidos permitem o certificado Indicação Geográfica Protegida.

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