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Fustigado pelos fogos, Mação cria soluções premiadas no estrangeiro

Com cerca de 40.000 hectares, 80.000 pequenas propriedades e 95% de área florestal, Mação viu o seu território ser devastado por incêndios nos últimos 30 anos, tendo desenvolvido na última década práticas florestais hoje elogiadas em vários países.

A área ardida da extensa mancha florestal do município de Mação, no distrito de Santarém, ultrapassa, somada, desde 1991, “já mais de 120% da área do concelho, um verdadeiro cenário de catástrofe”, considera o vice-presidente da Câmara Municipal, António Louro (PSD).

O concelho começou a ser fustigado pelos grandes incêndios no final da década de 1970 e, desde aí, o processo foi-se agravando até culminar nos grandes incêndios de 2003, em que mais de 22.000 hectares foram consumidos em três fogos.

António Louro, que é também o responsável pela proteção civil municipal e o mentor de projetos de prevenção, vigilância e combate a incêndios, além do conceito de “Zona de Intervenção Florestal (ZIF) de Gestão Total” e da “Sociedade de Gestão Territorial”, fez distribuir dezenas de motobombas por todas as aldeias do concelho e criou o sistema McFire, ferramenta informática que permite levar a informação existente sobre a zona de combate para o Posto de Comando e monitorizar o desenvolvimento do fogo em tempo real.

A visão integrada de Mação, que “já foi dada a conhecer a sete secretários de Estado portugueses”, tem merecido a atenção de entidades internacionais e, inclusive, recebeu prémios como o “Batefuegos de Oro”, em Espanha, além de outras distinções e convites de entidades ligadas ao desenvolvimento rural espanholas, da Universidade de Santiago de Compostela, da Hungria e da Sérvia.

“Apesar dos enormes avanços e melhorias no sistema de combate aos incêndios em Portugal, não estamos a conseguir reduzir significativamente o seu impacto. Temos de mudar de paradigma e ordenar e gerir os espaços florestais de forma diferente”, advoga.

Para este autarca, “os problemas de Mação têm uma raiz funda e, infelizmente, partilhada por muitas regiões, não apenas em Portugal, mas também outras regiões rurais da Europa. São consequência da saída abrupta, após séculos de permanência, das populações rurais”, frisa António Louro.

“Temos hoje um coberto florestal denso, contínuo, altamente inflamável, praticamente impenetrável, que cobre quase todo o território do concelho de Mação, uma nova paisagem que existe há poucas décadas e que resulta de grandes alterações socioeconómicas”, observa, frisando que “esta nova paisagem é extremamente propícia a incêndios de grande violência e elevada rapidez de propagação”.

“Não sendo possível mudar o clima e fazer desaparecer as altas temperaturas, a baixa humidade ou o vento Leste por decreto, resta-nos tentar reequilibrar a nossa paisagem às condições climáticas que temos”, defende este engenheiro de formação.

Segundo diz, “o velho sistema colapsou, pelo que resta encontrar novas ferramentas para a gestão, que viabilizem o ordenamento e compartimentação das áreas florestais, criando áreas limpas sem combustível que permitam ações de contenção de incêndios. Estas áreas existiam naturalmente no passado, fruto da atividade agrícola e da pastorícia. É necessário reinventá-las”.

É isso “que se tem tentado fazer em Mação desde os incêndios catastróficos de 2003”.

“Criando Sociedades de Gestão Territorial, talvez consigamos criar uma figura de gestão sólida em termos jurídicos e transparente, que una vontades à escala de cada comunidade humana rural e, assim, consigamos, com a escala adequada, ordenar adequadamente e construir uma paisagem mais resiliente aos incêndios florestais”, defende.

A concluir, António Louro sublinha que o que Mação tem tentado construir “é muito difícil e contraria muitos interesses, mas os problemas difíceis não costumam ter soluções fáceis”.

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