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Geologia, o motor da evolução económica de Arouca

Em Arouca sempre houve quem colecionasse fósseis pré-históricos ou vendesse pedras “com poderes místicos”, mas, desde que o território foi classificado como Geoparque da Unesco, raridades geológicas que antes eram tratadas “a pontapé” dinamizam agora a economia local.

Clarinda Tavares vive há 62 anos no único local do planeta onde estão identificadas as chamadas “pedras parideiras” – fenómeno em que um maciço rochoso liberta pequenos nódulos graníticos revestidos a mica preta – e admite, com algum embaraço, essa indiferença que existia para com o ex-líbris da aldeia da Castanheira.

“A gente queria lá saber disso”, reconhece a criadora de gado. “Nós bem víamos que havia quem cá viesse apanhar pedras com a ideia de que elas ajudavam a engravidar, mas, para nós, eram calhaus como os outros e andavam a pontapé”, revela.

Nesse município com quase 330 quilómetros quadrados, a floresta sempre foi densa, a natureza marcante, e essa falta de atenção para com a sua morfologia uma consequência do excesso de familiaridade.

“Nos anos 80 raramente cá vinha gente de fora. Os da terra gostavam muito disto, mas não havia um conhecimento científico sobre estes recursos e as pessoas não tinham noção do valor do que aqui estava”, recorda José Artur Neves, natural da terra e presidente da Câmara desde 2005.

O primeiro colecionador atento ao tema foi Manuel Valério, proprietário de uma pedreira de ardósia que o presenteava com abundantes fósseis datados de há 456 milhões de anos, agora reunidos num museu privado em Canelas. Há vestígios desses em todo o mundo, mas a geóloga Daniela Rocha explica: “O tamanho médio das outras trilobites ronda os sete centímetros, enquanto as de Arouca chegam aos 90”.

Quando em 2005 um geólogo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro apontou esses e outros fenómenos como potencialidades de um geoparque, José Artur Neves ficou rendido. “O Artur Sá falou das singularidades geológicas do concelho numa perspetiva totalmente diferente e eu percebi que andava preocupado com uma comissão de estudo para o desenvolvimento do território quando afinal a estratégia já estava ali”, conta.

O resto foi fácil. Em 2008 Arouca submetia à Unesco a sua candidatura a geoparque e um ano depois essa estava já aprovada, reconhecendo o valor patrimonial de 41 geossítios, como a Livraria do Paiva, onde estratos de quartzito vertical fazem lembrar uma estante, e a Gola do Salto, um desnível de quatro metros onde se cruzam no rio duas falhas geológicas, para delícia dos praticantes de ‘rafting’.

O que se verificou entretanto é o que Bruno Teixeira, presidente da Associação Empresarial de Cambra e Arouca, descreve como “um desenvolvimento generalizado” do tecido económico local, que começou “de forma lenta” mas registou “um impulso totalmente diferente desde a inauguração dos passadiços do rio Paiva”, em 2015.

“A gastronomia sempre atraiu muita gente a Arouca, mas antes era só ao fim de semana”, contextualiza. “Com o geoparque, houve um envolvimento geral da população e as unidades hoteleiras começaram a organizar-se de outra forma, mas, realmente, foram os passadiços que catapultaram o concelho para um outro nível”, reconhece.

José Artur Neves realça que essa evolução vem abrangendo todos os setores de atividade e sintetiza: “O potencial já tínhamos, criámos foi organização – e isto sem descurar a componente industrial, que há 30 anos não existia no concelho e agora tem uma balança comercial equilibrada, em que por cada euro importado exportamos três”.

Na Castanheira, ainda é a ruralidade que ressalta. A paisagem é agora recortada por um radar meteorológico em cuja torre de 47 metros se inclui um mirante, mas os hábitos da aldeia são os de sempre. É por isso que Clarinda Tavares ainda se enerva ao lembrar turistas metediços que “se põem a abrir a porta do curral e deixam as vitelas fugir”.

O que essa afluência de forasteiros tem de positivo é que aproximou da aldeia jovens como David Fernandes, que trabalha como guia-intérprete na Casa das Pedras Parideiras e combina o expediente com os “jeitos” que faz à vizinhança – “ensinar uma bezerra novita a ir para o monte pastar” ou apenas por tirar um café a um pastor que quer “conversar ou precisa de quem lhe leia uma carta”.

Enquanto isso, Manuel Tavares anda sozinho pelos montes, a controlar as suas vacas. Tem 69 anos, já combateu em Moçambique, viveu em França e viu “muito mundo”, mas “em lado nenhum” encontrou pedras como as por ali paridas. Tem-lhes apreço, só que seletivo. “Em novo brincava com elas, agora não lhes ligo”, assegura. “Mas dou-lhes valor! Vi o vídeo que está na Casa das Pedras e sei muito bem que elas são uma coisa com interesse”.

Poderes mágicos para ajudar à gravidez? Aí, Manuel ri-se com gosto: “Eu sou do mundo antigo e do moderno. Sei que as coisas mudam e são como são. Mas levar pedrinhas para casa, fazer rezas e tal? Deixe-se disso! Os bebés fazem-se é à moda antiga!”.

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