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Gigantes comerciais invadem Portimão e esmagam comércio tradicional

A implantação de grandes superfícies comerciais nos últimos 30 anos, em Portimão, levou ao encerramento de mais de uma centena de lojas do comércio tradicional e a uma acentuada desertificação do centro histórico da cidade, segundo os comerciantes.

Até meados da década de 1990, Portimão concentrava cerca de duas centenas de estabelecimentos de venda a retalho, atraindo diariamente muitas pessoas à chamada “rua do comércio”, o que fazia do centro da cidade a segunda maior zona comercial do Algarve a seguir a Faro.

A maioria dos comerciantes tradicionais aponta o avolumar do número de grandes superfícies comerciais no concelho como a causa para o encerramento de dezenas de pequenas lojas e “a consequente desertificação da rua do comércio”.

De acordo com os dados fornecidos pela autarquia, Portimão, com cerca de 50 mil habitantes, tem atualmente 1.714 superfícies comerciais, que ocupam uma área de cerca de 135 mil metros quadrados, sendo 335 estabelecimentos de comércio por grosso, uma média de 31 edifícios por cada mil habitantes.

Alguns dos estabelecimentos estão concentrados em quatro grandes superfícies e distribuídos por dois centros comerciais.

“Não temos dúvidas de que foram os grandes centros comerciais que retiraram as pessoas da zona nobre do comércio da cidade, esmagando os pequenos comerciantes com preços e ofertas com as quais não conseguem competir”, disse à agência Lusa Júlio Ferreira, coordenador da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (ACRAL).

Na opinião de Júlio Ferreira, “os pequenos comerciantes foram incapazes de competir com as grandes superfícies ao nível de preços, porque a quantidade negociada com os fornecedores é completamente diferente”.

“Enquanto um pequeno comerciante compra algumas dezenas de produtos, as grandes lojas adquirem centenas, conseguindo dos fornecedores preços mais vantajosos”, exemplificou.

Para Júlio Ferreira, os poucos comerciantes que permaneceram na rua do comércio “e que sobreviveram à avalanche das grandes superfícies”, tiveram de encontrar outras formas de gerir os negócios, “apostando na modernização e qualidade dos produtos”.

“Alguns comerciantes tiveram a perceção de que a viabilidade do negócio passava por apostar na comercialização de produtos de maior qualidade e personalizados”, sublinhou.

O coordenador da ACRAL acrescentou que estão a ser preparados projetos para revitalizar a zona comercial do centro histórico, considerando que “o principal passa por conseguir uma redução substancial no preço dos arrendamentos”.

“Há proprietários que exigem preços demasiado altos, o que afasta os possíveis investidores”, destacou.

Para a presidente da Câmara de Portimão, Isilda Gomes, apesar de a cidade ter perdido o seu “centro histórico comercial”, o concelho continua a assumir-se como um grande centro comercial, representando as grandes superfícies uma grande fatia da economia.

Isilda Gomes reconheceu que as grandes superfícies retiraram clientes ao comércio tradicional, “devido à comercialização de marcas mais modernas e baratas, não tendo existido por parte dos comerciantes um acompanhamento de modernização e, sobretudo, uma captação de novos clientes para os fidelizar”.

“Não tenho dúvida de que para os cidadãos foi bom, mas para a zona histórica ou para a rua do comércio não foi. Claro que para o cidadão, quanto mais áreas comerciais houver, maior é a facilidade em encontrar preços mais baixos”, referiu a autarca, acrescentando que as grandes superfícies “trouxeram desenvolvimento ao concelho e mostram que são lucrativas”.

“Existe mercado e não é exclusivamente de portimonenses, pois captam clientes de outros municípios vizinhos, refletindo-se na economia do concelho”, sublinhou.

Para Isilda Gomes, a “rua das lojas só tem hipótese de ser competitiva se apresentar produtos diferentes, com maior qualidade”.

“Os empresários que arriscaram e investiram na rua das lojas, estão a viver com sucesso, pois existe movimento nas lojas que têm tido capacidade de inovação, com bons produtos e coisas atrativas”, destacou.

A autarca lamentou a inexistência de uma área comercial “nova e dinâmica no centro da cidade”, atribuindo a opção aos empresários: “A baixa da cidade é um espaço muito bonito e merecia ter uma outra dinâmica, mas, infelizmente, fecham-se mais lojas”.

“Ao contrário de outras zonas, como, por exemplo, onde o comércio está aberto em feriados e com horários prolongados, em Portimão os comerciantes não o fazem. Não é a Câmara que vai impor aos comerciantes que têm de abrir, por exemplo, até à meia-noite às sextas-feiras”, sublinhou.

Isilda Gomes adiantou, ainda, que a autarquia está disposta a colaborar com programas de dinamização e de animação que atraiam pessoas ao centro histórico, mas atribui aos empresários a “responsabilidade de tomarem a iniciativa de criarem programas dinâmicos”.

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