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Gondomar, décadas de governação sob o pulso de um major

“Gondomar Coração d’ Ouro” ou “Gondomar sabe voar” são ‘slogans’ que colocaram o concelho que contribui 60% para o setor da ourivesaria nacional nas primeiras páginas, mas a sua história não pode ser contada ignorando um nome: Valentim Loureiro.

O resumo em números é simples: cinco mandatos, 20 anos (1993/2013) à frente de Gondomar, distrito do Porto. Cinco atos eleitorais, cinco vitórias, três das quais com o apoio do PSD e duas como Independente. A lei da limitação de mandatos impediu uma sexta candidatura.

Da primeira vez, ganhou por 600 votos, menos de 1%. Em 2005 não teve o apoio do PSD por decisão do então líder Marques Mendes. Soube-o antes de entrar em direto na RTP, para uma entrevista na qual disse “sou candidato na mesma”, tendo ido a votos com a lista “Valentim Loureiro, Gondomar no Coração”, candidatura que conquistou oito lugares, enquanto o PS conseguiu dois e o PSD um.

Resumo mediático: conhecido por liderar com “pulso de ferro”, foi chamado a tribunal por várias vezes, nomeadamente no caso “Apito Dourado”, acumulou funções na Liga de Clubes, na Metro do Porto, no Boavista Futebol Clube e na Distrital do PSD, levava as crianças a Lisboa e distribuía eletrodomésticos.

Sobre estes episódios, em declarações à agência Lusa, o próprio explica que, em 1993, quando estava em campanha eleitoral, uma professora queixou-se de que tinha uma cassete VHS para apresentar, mas não tinha nem televisão, nem vídeo.

“Eu tinha lojas de eletrodomésticos e mandei entregar um televisor e um vídeo. As outras escolas começaram a falar disso. Como sou contra discriminações perguntei ‘quantas escolas faltam?'”. Faltavam 90. “Mas em relação a particulares, não é verdade”, garante.

O programa “Gondomar sabe voar” tem um prólogo semelhante. Numa visita à câmara, uma professora pediu a Valentim Loureiro: “Leve as crianças desta turma a Lisboa”. “Eu disse ‘ok’. Claro que tive de alargar a todos os miúdos”, conta o ex-autarca, admitindo que “quem seus filhos beija, sua boca adoça”, porque, continua, “toda a atividade tem uma componente política”.

Terá levado milhares de crianças a conhecer a capital de avião, algo que não era comum na época e que servia para premiar o aproveitamento dos finalistas do 4.º ano.

Major do Exército na reforma, Valentim Loureiro, natural de Viseu, chegou a Gondomar por convite de Nuno Delerue e Luís Filipe Menezes, então responsáveis pela Distrital social-democrata do Porto.

“Precisavam de alguém para Valongo ou Gondomar (…). Fiquei surpreendido porque não era coisa que me tivesse passado pela cabeça. Franzi a testa. Eles argumentaram e convenceram-me”, conta.

Escolheu Gondomar porque, embora não conhecesse o concelho, não tinha lá negócios, ao contrário de concelhos vizinhos. Não consultou a família, mas às quatro da manhã pegou no carro para dar uma volta ao concelho.

“Era um município um bocadinho subdesenvolvido. Na Nacional 15, ao pé de Rio Tinto, um carro não conseguia passar pelo outro (…). Hoje é diferente. Durante os meus mandatos foi possível construir algumas obras emblemáticas que hoje colocam Gondomar como município respeitado”, aponta.

Visão semelhante tem o presidente da Associação Comercial e Industrial, Graciano Martinho, que à Lusa descreve um “Gondomar pré-Major e um Gondomar pós-Major”.

“Era uma localidade sem acessibilidades, mas passou a ter entradas e saídas”, relata o dirigente, considerando a criação do IC29 e da Avenida da Conduta como “preponderantes”, num tempo em que “não foi só o concelho que beneficiou, já o país vivia um período de desenvolvimento, mas só conseguiam obras e dinheiro os que batiam o pé”.

Ainda no que se refere a empreitadas emblemáticas, Valentim Loureiro junta ao rol uma assinada por Siza Vieira, o pavilhão Multiusos, ou o Hospital Fernando Pessoa, mas prefere destacar o investimento na habitação social, que garante ter conquistado quando Cavaco Silva visitou Gondomar meia dúzia de meses depois de ter sido eleito pela primeira vez.

“Exigi três EB 2,3 e ajuda na construção de 1.993 habitações sociais”, refere, acrescentando como “principal obra” o “ajudar as pessoas a resolver os seus problemas”.

E ainda sobre o tal “pulso de ferro”, o artista plástico e dirigente associativo gondomarense Albertino Valadares resume à Lusa os mandatos de Valentim: “Fez-se muita coisa boa e coisas menos boas. Às vezes confunde-se arrogância com demonstração de poder. Parecia uma pessoa rude, mas é humano. O associativismo teve um impulso com ele”.

Questionado sobre se considera que o seu nome está inevitavelmente marcado na história de Gondomar – cidade que agora só visita regularmente quando precisa de ir ao barbeiro – Valentim Loureiro diz que lhe dá “prazer perceber diariamente isso” quando as pessoas se dirigem a si, esteja numa rua do Porto ou de Lisboa.

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