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Guiné-Bissau está desconfigurada há 18 anos por causa de uma guerra

A guerra civil de 1998 a 1999 na Guiné-Bissau (também chamada de guerra de 07 de junho, dia em que começou) criou um “precedente de desconfiguração do Estado” de tal forma violento que prevalece até hoje, defende o sociólogo Dautarin da Costa, 34 anos.

Gerou-se uma descrença nas instituições do Estado que ainda não foi ultrapassada e que alimenta a ineficácia das próprias instituições, uma espécie de círculo vicioso, acrescenta.

Ou seja, com a guerra de há 18 anos houve uma demonstração de como se podem desfazer as instituições de um Estado – da justiça, à política, passando pela defesa e segurança e pelas áreas de ação social -, sem que até hoje tenha havido quem faça uma demonstração do contrário, de que os organismos do Estado podem funcionar de acordo com as regras e haver desenvolvimento.

Antes da guerra não se vivia “num mar de rosas”, mas o país “já se tinha dado conta de que havia erros graves cometidos e era necessário desenvolvimento. Havia pressão interna e externa”.

Mas o conflito foi uma regressão: fazendo uma analogia com uma criança, para Dautarin a Guiné “estava a gatinhar”.

“Foi como se tivéssemos dado um tiro naquela criança que tinha começado a gatinhar com o pretexto de que nunca mais andava”.

“Deixou de haver criança, morreu, e ficou um vazio”, até hoje.

Como consequência, “ninguém acredita nas instituições. Todas as pessoas que querem resolver coisas procuram caminhos alternativos para as resolver, à margem das instituições”.

Ao mesmo tempo, depois da guerra civil surgem “novos protagonistas que interpretaram o poder como uma forma de sobreviver dentro de um sistema” – o que, conjugado com a descrença [nas instituições], faz com que toda a disputa [pelo poder]também seja feita à margem das instituições.

“O que é preciso agora é criar um precedente de configuração do Estado e suas instituições. Mas há atores instalados e retirar estas pessoas dessa zona de conforto é comprar uma guerra”, porque são “pessoas que acumularam poder”.

E colocar essa “guerra” onde deve estar, num plano “do debate de ideias, sem violência, é ainda mais complicado”, acrescenta.

“Prevejo muitas dificuldades para alterar isto” e as pessoas que liderarem a mudança “serão incompreendidas e só reconhecidas num período posterior”.

Hoje, Dautarin dedica parte do seu tempo de investigação a debruçar-se sobre a Guerra de 07 de Junho, mas na altura em que o conflito estalou, com 16 anos, mal sabia que ia viver emoções extremas que o iam marcar para sempre.

“Eu na verdade nunca tinha sentido medo até àquela altura. Tudo o que au achava que era medo era mentira”.

“A ideia de que estão a ser disparadas bombas de um sítio e que podem cair onde eu estou e que eu posso morrer ou, pior, ver alguém da minha família morrer… eu experienciei. É medo de verdade”, contou à Lusa.

Naquela época percebia-se a cada passo “a fragilidade que é a vida, a nossa existência. Como de um momento para o outro as coisas mudam e nos ficamos sem nada. Ficamos rodeados pelo medo”.

Era difícil ser de outra maneira, porque não havia assunto que pudesse suplantar o tema da guerra e dos mortos – mais de dois mil, num número ainda hoje incerto.

“Foi muito duro. Todos os dias tínhamos histórias de mortes de pessoas que conhecíamos ou situações humanitárias precárias no Hospital Simão Mendes”, o principal do país, na capital.

“Nunca esperei que a morte estivesse tão presente na minha vida, naquela idade”.

A guerra fez com que Dautarin vivesse como um refugiado dentro do seu próprio país, entre a capital e Prábis, localidade a algumas dezenas de quilómetros onde o pai encontrou abrigo para os filhos.

“Sabemos bem o que é ser refugiado: é bem mais forte e dramático do que se possa imaginar. A ideia de teres que fugir sem os recursos que te permitam sobreviver no dia-a-dia, porque queres preservar o teu bem maior que é a vida”.

Uma espécie de desespero que ainda se vive na Guiné-Bissau ao se constatar que não se consegue livrar dos atores políticos ou militares que a sujeitam a crises crónicas, com recursos para uma elite e a população quase toda na pobreza.

Hoje, a Guiné-Bissau precisa de “lideranças clarividentes, conscientes e corajosas. Não é fácil. É comprar uma guerra”, não bélica, mas difícil de posicionar.

O desejo de Dautarin é que esse confronto aconteça no plano das ideias, nos espaços das intuições, para que se crie um novo precedente de desenvolvimento.

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