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Homicídio múltiplo no Osso da Baleia marcou praia de Pombal para sempre

Há 29 anos, a praia do Osso da Baleia, na freguesia do Carriço, concelho de Pombal, ficou conhecida por todo o país quando Vítor Jorge, um contínuo de uma instituição bancária, ali assassinou cinco pessoas.

Pouco depois, já num pinhal na Marinha Grande, matou a mulher e uma filha.

Uma outra filha e um filho, que completavam a família, escaparam ao então denominado “mata-sete”, autor de um dos mais marcantes homicídios em Portugal e que deixou para sempre uma mancha negra naquela praia do distrito de Leiria.

“Foi um acontecimento trágico que marcou o Osso da Baleia pela negativa”, afirma Aníbal Dias, popular que ainda hoje não esquece os corpos que viu estendidos na praia na noite do dia 01 de março de 1987.

O morador do Carriço recorda que nessa noite ia, com o sogro e com um amigo, apanhar isco para a pesca na maré baixa e que quando chegou à praia foi intercetado. “Estava bastante nevoeiro e via-se mal. De repente, aparece-me uma pessoa vestida à civil de G3 na mão e assustei-me”, conta Aníbal Dias, que acabou por sair do carro para se dirigir ao indivíduo e se deparou com dois corpos no chão.

Aníbal Dias conduzia uma Renault 4L, veículo idêntico ao do homicida. No regresso, voltou a ser mandado parar por outra patrulha e aí foi revistado. “Encostaram-nos ao ‘capot’ e até pontapés nos tornozelos nos deram”, lembra.

Chegados a um café, ninguém acreditou na história do conterrâneo: “Só quando viram os carros funerários passar”.

Uma das vítimas da praia do Osso da Baleia foi uma empregada de limpeza dos hospitais de Coimbra, com quem Vítor Jorge manteria uma relação afetiva. Os outros seriam amigos e o namorado daquela.

Vítor Jorge não se entregou às autoridades e foi detido quatro dias depois, já no concelho de Porto de Mós, escondido num barracão.

Meses depois, o julgamento arrancou marcado pelo confronto de duas teses sobre o arguido: a defesa aludia a um “doente mental grave”, logo inimputável, e os médicos do centro de saúde mental de Leiria contrariavam esta estratégia e garantiam a imputabilidade do “mata-sete”.

Então com 38 anos, foi condenado a 20 anos de prisão – pena máxima, na altura – e saiu passados 14, fruto de várias amnistias.

Esperava-o o seu filho, nas imediações da prisão de Coimbra. Depois disso, terá vivido em Inglaterra e França.

O caso do Osso da Baleia “foi um acontecimento que marcou a freguesia pela negativa. Durante muito tempo havia pessoas com receio de voltar à praia. Na altura, as pessoas nem queriam sair de casa nem ir ao Osso da Baleia. Foi um trauma”, salienta o popular.

Aníbal Dias, então com 24 anos, acrescenta que o “crime chocante” o marcou: “Ainda hoje quando vou ao Osso da Baleia sinto um arrepio e ainda ‘vejo’ aqueles corpos no chão”.

A investigação deste crime foi iniciada por dois estagiários, que estavam à hora certa no sítio certo: “Quando se está a começar, gostamos de mostrar serviço. Já todos tinham saído e eu e o meu colega ficámos mais um pouco, quando recebemos um telefonema da GNR a informar do crime”, recorda o inspetor-chefe, agora aposentado, Diamantino Carvalho, que estava na Polícia Judiciária de Coimbra.

Chegados ao local, depararam-se com uma “confusão” de autoridades. “Junto ao corpo da mulher estava um bocado de papel que dizia: ‘Foste tu que quiseste. Os outros foram por arrastamento’. O que vimos foi tipo filme de terror”, acrescenta o investigador.

Diamantino Carvalho ainda esteve na reconstituição do crime, tarefa na qual Vitor Jorge colaborou totalmente com a polícia. “Há poucos crimes assim em Portugal”, diz.

Na prisão de Coimbra, Vítor Jorge ficou conhecido por ser um preso exemplar, chegando até a ajudar na missa.

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