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Homicídios perturbaram pacatez de aldeias de S. João da Pesqueira

A pacatez de duas aldeias do concelho de S. João da Pesqueira, no distrito de Viseu, foi perturbada em 2005 e em 2014 por homicídios que ainda hoje são recordados emotivamente por quem conhecia as vítimas e os agressores.

A 21 de janeiro de 2005, a pequena aldeia de São Xisto, enquadrada na paisagem dos socalcos do Alto Douro Vinhateiro, ficou apenas com três dos seus sete habitantes.

Jusmino Vila Real terá assassinado primeiro a mulher, Maria Alice Ribeiro, na sua própria casa, saindo depois para a rua e abatido Ernesto Ermidas e Etelvina Lopes. Regressou então a casa para se suicidar.

A cerca de 25 quilómetros de distância, em Valongo dos Azeites, a 17 de abril de 2014 – uma quinta-feira santa – um novo caso voltou a chocar a população: Manuel Baltazar, conhecido por “Palito”, disparou contra a filha e a ex-mulher (Sónia Baltazar e Maria Angelina Baltazar, que ficaram feridas) e duas familiares desta (a tia e a mãe, Elisa Barros e Maria Lina Silva, que morreram).

Hoje, em São Xisto, ainda se sente o drama do triplo homicídio seguido de suicídio: na aldeia, não vive uma pessoa.

“Já não vive cá ninguém há uns dois anos. Vêm é cá turistas, de vez em quando”, conta à agência Lusa Hernâni da Teixeira, que vive em Vale de Figueira e volta e meia é chamado para fazer manutenção de espaços da aldeia.

De moto roçadora na mão, o homem de 54 anos explica que, em primeiro lugar, foram embora Valdemar Granja e a mulher, optando por morar em Vila Nova de Gaia, e, por último, a viúva Atília de Jesus, que foi viver com um filho para S. João da Pesqueira, embora “não fosse muito a vontade dela”.

A aldeia de ruas empedradas tem uma quinta de turismo rural e casas em xisto que foram recuperadas.

“Só meia dúzia de casas é que não são do dono da quinta”, explica Hernâni da Teixeira, que estava precisamente a trabalhar nas obras de recuperação quando ocorreu a tragédia.

Hernâni da Teixeira recorda que estava “numa obra mesmo ao lado” com um colega quando ouviram tiros e gritos, tendo logo temido o pior, porque apesar de Jusmino e Ernesto serem compadres e andarem muitas vezes juntos, discutiam com frequência.

Sempre que lhe pedem, o homem vai à aldeia cortar o mato e as ervas, tratar das vinhas e dos olivais e fazer qualquer outro trabalho rural que seja preciso. Nesses dias, praticamente só se cruza com uma mulher que trabalha na quinta, mas que também vive em Vale de Figueira.

“O dono da quinta vem cá esporadicamente. As outras pessoas que cá têm casas vêm de vez em quando passar fins de semana. O que ainda dá alguma vida são os turistas, sobretudo no verão, na altura das amendoeiras em flor, nas vindimas e na passagem de ano”, afirma.

Em Valongo dos Azeites, por outro lado, ainda hoje há quem não entenda como Manuel Baltazar, considerado “um bom homem”, disparou contra as quatro mulheres, o que lhe valeu a pena máxima de 25 anos de prisão.

“Quando me contaram o que se tinha passado eu disse que era impossível, porque ele nunca fez mal a ninguém. Atirar contra as quatro? Ninguém queria acreditar”, recorda Dorval Figueiredo, de 60 anos, que é familiar das vítimas.

O mesmo sentimento de incredulidade teve Alda Augusto, de 72 anos, que optou por não ir averiguar o que se passava por lhe custar “ver estas desgraças”.

“Nunca se viveu nada parecido por aqui. Andámos dias e dias na televisão”, lembra.

O facto de Manuel Baltazar ter andado fugido 34 dias prolongou as notícias até à sua detenção e levou a que muitos populares optassem por sair de casa o menos possível.

“Diziam que ele passava aqui no monte e toda a gente tinha medo que ele aparecesse”, conta Alda Augusto.

Para Dorval Figueiredo, a Páscoa passou a ficar marcada por esta tragédia, uma vez que é tradição na aldeia “a família correr as casas todas durante a visita pascal”.

“Tenho muita pena que isto tenha acontecido, porque ele era meu amigo e nunca me fez mal. Mas cometeu um crime, tem de o pagar”, sublinha.

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