Fechar
Abrir

Hospital de Loures surgiu com 90 anos de atraso

Data de 1920 a primeira reivindicação de um hospital para Loures, mas só 90 anos depois o “sonho” se tornou realidade, com a construção do Beatriz Ângelo (HBA), equipamento de saúde que serve 272 mil habitantes, de quatro concelhos.

Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a exercer o direito de voto e a primeira cirurgiã portuguesa, feitos históricos que serviram de inspiração ao nome do Hospital de Loures, que abriu portas a 19 de janeiro de 2012.

O socialista Carlos Teixeira, que presidia a Câmara de Municipal Loures na altura (2001-2013), recorda à agência Lusa que aquele foi “um dia muito especial e gratificante” para o município.

“Foi especial, porque era um sonho antigo dos lourenses tornado realidade”, refere, acrescentando que, na sua opinião, o Hospital de Loures foi a infraestrutura mais importante que surgiu no concelho nas últimas décadas.

“Era uma reivindicação de quase um século. Podia falar do IKEA ou do Loureshopping, mas um equipamento de saúde é mais importante do que qualquer coisa”, destaca.

A opinião é partilhada pelo atual presidente da Câmara de Loures, Bernardino Soares (CDU), que reconhece a importância do hospital, lamentando, contudo, que persistam “muitos dos problemas identificados na altura da abertura”.

“Sem dúvida que marcou a vida do território de Loures e que é uma enorme mais-valia, mas não podemos deixar de apontar vários aspetos negativos que ainda não foram resolvidos”, ressalva.

Assim, o autarca comunista aponta a escassez de transportes públicos, a dificuldade de estacionamento, e a não abrangência das freguesias da zona oriental do concelho (estão afetos ao hospital de São José, em Lisboa), como os principais problemas a resolver.

“Os transportes são muito difíceis, sobretudo para quem vive nas freguesias de Camarate e da Apelação. Os custos dos transportes são muito elevados”, lamenta.

No entanto, ainda que sintam “na pele” os problemas apontados pelo presidente da Câmara de Loures, alguns utentes ouvidos pela Lusa preferem destacar o conforto de ter um hospital quase “à porta de casa”.

“Ir para o Santa Maria (em Lisboa) era uma aventura e envolvia muitos gastos, fosse com o transporte ou com as refeições. Agora, temos um hospital à mão e até parece que psicologicamente é diferente, porque sabemos que se houver algum problema está logo ali”, afirma Jorge Fonseca, de 45 anos.

Outra utente do hospital, residente em Santo António dos Cavaleiros, destaca a simpatia dos enfermeiros e dos médicos do hospital.

“Tem o problema que todos os hospitais têm, de demora nas urgências, mas em relação ao pessoal só tenho coisas boas a dizer. O parque de estacionamento é que também podia ser melhor”, aponta Isaura Correia, de 62 anos.

A construção do hospital também mudou a vida da corporação de Bombeiros de Loures, que destaca o “excelente” relacionamento com toda a equipa hospitalar.

“Temos uma relação muito mais aberta com o hospital e existe um maior convívio entre os profissionais. É totalmente diferente”, afirma à Lusa o adjunto de comando, Acácio Severino.

O responsável refere que, fruto de protocolos com o hospital, os bombeiros participam com frequência em ações de formação e prestam apoio ao heliporto.

“O hospital trouxe outro movimento. Temos mais trabalho mas também é mais gratificante”, atesta.

Sobre o passado, Acácio Severino, bombeiro há 45 anos, recorda os tempos em que os doentes de Loures tinham de ser transportados para Lisboa, uma viagem que muitas vezes era “bastante atribulada”.

“Você já viu o que era ir para São José e ter de atravessar toda a cidade de Lisboa, em muitos locais cheios de buracos. Hoje o socorro é muito mais rápido”, destaca.

No entanto, para os casos menos urgentes, a distância e os custos para chegar a Lisboa podiam mesmo ser um entrave, levando os utentes a evitarem os hospitais. Desse facto dá conta à Lusa o administrador do HBA, Artur Vaz.

“Trouxe certas pessoas que estavam a subutilizar os serviços de saúde de acordo com as suas necessidades. Havia pessoas que não estavam a utilizar o quanto necessitavam. Uma coisa é eu poder ir a um hospital que está relativamente perto de minha casa e outra coisa é eu ter de ir para Lisboa, implica toda uma logística”, argumenta.

A esse propósito, o responsável conta que o caso mais estranho com que se deparou nos cinco anos do hospital foi o de um doente que sofria de escorbuto.

“Em pleno século XXI é um acontecimento. É uma doença que nós ligamos aos piratas e aos Descobrimentos. Foi uma situação muito curiosa”, conta.

Artur Vaz destaca ainda o número de crianças que já nasceram na maternidade do HBA, um dos “motivos de orgulho” daquele serviço.

“Muito brevemente iremos chegar aos 10 mil partos. Começa já a existir a marca Loures”, brinca.

Além de Loures, o HBA serve também os concelhos de Odivelas, Mafra e Sobral de Monte Agraço, num total de 272 mil utentes.

Voltar atrás