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Ílhavo vive a “agonia” da pesca do bacalhau

Ílhavo realiza anualmente em agosto o Festival do Bacalhau, que atrai milhares de pessoas, mas, volvidos 30 anos sobre a adesão à União Europeia, a pesca longínqua agoniza perante a limitação de quotas e a concorrência norueguesa.

Durante séculos, a economia do concelho gravitou em torno das épicas viagens aos mares gelados da Gronelândia e Terra Nova e das “caldeiradas” de rendimento a distribuir quando os navios regressavam à barra de Aveiro, com os porões carregados de peixe.

“A cidade de Ílhavo monopolizava a pesca do bacalhau. As classes dirigentes, tanto na oficialidade, capitães e imediatos, como nas mestranças, era tudo de Ílhavo, incluindo contramestres, cozinheiros e motoristas”, recorda Valdemar Aveiro, autor de várias obras publicadas sobre a pesca do bacalhau, que viveu intensamente a bordo como tripulante, onde desempenhou várias funções, desde moço-pescador a capitão, e hoje integra a administração de uma das empresas de pesca.

Percorrendo as ruas da cidade de Ílhavo, a arquitetura ainda hoje testemunha em terra a abastança dessa classe dirigente náutica que Valdemar Aveiro refere.

A Gafanha da Nazaré, mais terra de pescadores e hoje igualmente cidade, assistiu no século XX ao crescimento de secas, armazéns, oficinas e estaleiros, primeiro, depois de câmaras frigoríficas e unidades industriais de transformação de pescado.

“Ílhavo era uma terra essencialmente marítima focada na pesca do bacalhau. Era uma cidade muito alegre e cheia de vida e hoje não tem nada. Começaram com o abate dos navios e hoje é uma cidade fantasma e na Gafanha está tudo a falir”, diz o capitão Valdemar Aveiro.

Atribui a causa à falta de quotas de pesca e contraria o argumento de que os armadores não investiram em novos navios, lembrando que o alargamento das zonas económicas exclusivas mudou o acesso aos pesqueiros e criticando a política europeia das pescas, deixando a interrogação: “de que serviria ter uma frota moderna sem quotas para pescar?”.

Aponta também o dedo à concorrência da Noruega, que coloca bacalhau seco no mercado português “a um preço inferior ao custo que as empresas da Gafanha têm, importando o bacalhau para o processar localmente”.

É a agonia de um setor que se especializou no bacalhau seco, “ferido de morte” desde a adesão à União Europeia, que passou a impedir a negociação bilateral no acesso aos pesqueiros, segundo a explicação da maioria dos armadores, que o capitão Valdemar Aveiro partilha.

A política comunitária das pescas fez “tábua rasa” dos direitos históricos de pesca portugueses nos distantes mares do habitat do bacalhau, recriado no Museu Marítimo de Ílhavo, onde se podem observar alguns exemplares, num aquário com temperaturas negativas, para que não se perca a memória e identidade.

A distribuição de quotas de pesca da União Europeia deixou de justificar uma frota de dezenas de navios que “faziam formatura” no cais dos bacalhoeiros da Gafanha da Nazaré e da então CEE veio dinheiro para o seu abate.

Contabilizam-se mais de 40 embarcações de largo abatidas com apoios públicos. Outras foram vendidas e passaram a operar com o pavilhão de países terceiros e já poucas restam matriculadas no Porto de Aveiro.

“Os melhores navios da nossa frota foram os primeiros a ser abatidos. O mais novo e moderno de todos, o ‘Vila do Conde’, foi logo abatido”, recorda.

A Noruega, entretanto, negociou oportunidades de pesca na sua Zona Económica Exclusiva, a troco de poder exportar bacalhau sem pagar direitos aduaneiros e, atenta ao elevado consumo do mercado português, desenvolveu a cura do bacalhau seco, que está hoje nos hipermercados e lojas à disposição do consumidor.

“Agora, o bacalhau vem em contentores e camiões frigoríficos e é descarregado aqui”, descreve com desalento Valdemar Aveiro.

Em momentos de incerteza, alguns dos que há 30 anos armavam navios são hoje meros armazenistas. Outros “persistem teimosamente” em continuar a operar comprando ou trocando quotas.

“Atribuem a Portugal uma quota miserável a distribuir pelos 12 navios que temos a operar, que, para sobreviverem, compram quotas aos que não as utilizam na Alemanha e na Holanda, entre outros”, comenta.

Há quem procure adaptar-se à nova realidade, apostando na captura de outras espécies e tomando outras rotas.

Pelo caminho ficaram tripulações inteiras: uma minoria prosseguiu a pesca ao serviço de armadores estrangeiros ou transitou para a marinha de comércio, muitos mudaram de vida e procuraram novas profissões ou emigraram. Os restantes vão enganando o desemprego em atividades na Ria que lhes garantam algum sustento.

“As pessoas é que não andam para aí a carpir as mágoas por que passam, mas vivem com muitas dificuldades”, descreve o capitão.

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