Fechar
Abrir

Introdução do mirtilo mudou a paisagem rural de Sever do Vouga

O mirtilo, um arbusto que produz um pequeno fruto usado sobretudo para culinária, foi introduzido há 20 anos em Sever do Vouga e mudou a paisagem rural, mas também humana do concelho.

Desconhecida até então, a cultura é hoje desenvolvida por um número crescente de jovens agricultores e a importância local reflete-se num dos principais eventos anuais do concelho, a Feira do Mirtilo.

Situado na zona mais serrana do distrito de Aveiro, o concelho tinha uma agricultura de subsistência, baseada sobretudo na cultura intensiva de milho, em alguns pastos e nos recursos florestais, explorada por uma população envelhecida.

O minifúndio, ao socalco e em propriedades de pequena dimensão, não dava escala nem augurava futuro diferente para os que foram ficando na terra, após o êxodo para as cidades e a emigração a que obrigou o fim da atividade mineira, primeiro, e depois a falência da fábrica de massas “Vouga”, que chegou a ser considerada a maior do género da Península Ibérica.

O microclima local despertou, no entanto, a atenção de técnicos de uma fundação holandesa que dava apoio à companhia leiteira local, devendo-se a eles a introdução da planta.

Manuel Soares, então presidente da Câmara, entusiasmou-se com a ideia e promoveu estudos e experiências que confirmaram a adequação ao cultivo das bagas silvestres.

Inicialmente, a produção foi ensaiada nos terrenos da Fundação Bernardo Barbosa de Quadros, proprietária de cerca de 45 hectares de terreno disponível, onde foi criada uma bolsa de terras para os que se quisessem dedicar ao “novo” fruto.

O mesmo autarca impulsionou ainda a criação de uma associação de produtores, a AGIM, hoje extensiva ao País e dedicada aos pequenos frutos.

Custódio Borges foi um dos primeiros que aderiram: “era uma cultura nova e eu estava a entrar na reforma e queria arranjar um passatempo qualquer aqui junto à casa. Éramos apenas dez ou 11 no início”.

O produtor reconhece a importância dos técnicos holandeses para que a produção vingasse, mas recorda as dificuldades iniciais, sobretudo na comercialização.

“Correu mais ou menos bem a produção, porque eles deram-nos alguma orientação, mas fomos também aprendendo à nossa custa: fazia-se mal, tentava-se a seguir fazer melhor. Quando plantámos nem os vizinhos sabiam o que era aquilo. Era um fruto que não era praticamente utilizado no país e para o estrangeiro também houve muita dificuldade em enviá-lo, porque eram pequenas quantidades e o envio ficava muito caro”, recorda.

Os primeiros clientes foram também os holandeses, mas hoje a cultura do mirtilo “está em pleno desenvolvimento”, como diz Custódio Borges, que mantém o cultivo de meio hectare, “por passatempo”, embora reconheça que é uma atividade compensadora.

“A produção é muito mais fácil e a venda também. Quem quiser produzir só erra se quiser e se não se aplicar, porque hoje há muita informação e a associação para nos apoiar. Na altura não havia nada disso, não havia internet e aprendemos com os erros”, conclui.

Voltar atrás