Fechar
Abrir

Justino do Fundo, o autarca que projetou Penafiel

O antigo presidente da Câmara de Penafiel Justino do Fundo foi, no último meio século, uma das personalidades mais marcantes do concelho, tantos foram os seus cargos autárquicos e associativos que projetaram e revolucionaram o município.

“Por Penafiel fazia tudo. O bem-estar das pessoas e o desenvolvimento do território estavam em primeiro lugar. Deixou um legado imenso enquanto autarca”, reconhece Pinto Lopes, ex-dirigente local do PCP e antigo presidente da Junta de Turismo de Entre-os-Rios.

Justino do Fundo, que morreu em 2007, está ligado a um dos períodos de maior desenvolvimento do concelho e da segunda cidade mais antiga do distrito do Porto, com uma forte aposta nas redes de abastecimento de água e saneamento básico e em infraestruturas viárias nas freguesias.

“É a obra do século”, costumava dizer, em tom coloquial que captava a atenção, a propósito da captação de água no Douro.

Dos governantes de então, quando visitavam o concelho, recebia inúmeros elogios, sobretudo pelo arrojo que exibia nas suas apostas, mas também pelo carisma que projetava o concelho.

Nascido em 1933 e criado na cidade, onde foi comerciante, Justino foi presidente da Câmara durante três mandatos, do início de 1983 até ao final de 1993. Antes, em 1974, tinha sido vice-presidente da Comissão Administrativa.

Da sua obra de autarca, destacam-se ainda equipamentos como as piscinas, o pavilhão desportivo, a biblioteca municipal, um bairro social, o matadouro regional e a feira Agrival, que ainda hoje se realiza.

A paixão de Justino do Fundo era a sua terra. Com voz grave e pausada, falava sempre de Penafiel como se fosse a maior cidade do mundo.

“Penafiel, uma cidade de primeira”, dizia muitas vezes, numa referência ao estatuto de primodivisionário que o Futebol Clube de Penafiel ostentava na década de 80 do século passado.

O futebol era, aliás, outra das suas grandes paixões, tendo sido presidente do clube vários anos, antes de ser presidente da Câmara.

“Nunca esteve agarrado a cargos e costumava até afirmar que as pessoas passavam e o clube continuava. Deixou um legado imenso ao F. C. de Penafiel”, diz Fernando Melo, ex-presidente do clube, recordando que Justino do Fundo “foi responsável pela subida do Penafiel à segunda divisão. Dotou o Estádio Municipal 25 de Abril de melhores condições e contribuiu para afirmar o nome do Penafiel a nível nacional”.

Ainda hoje se diz em Penafiel que Justino era um homem que sentia a cidade e o concelho como poucos, desempenhando outros cargos de destaque, nomeadamente nos bombeiros, onde foi vice-presidente.

Do seu percurso ficaram a obra e os títulos – sócio e presidente honorário do Futebol Clube de Penafiel, Irmão de Mérito da Misericórdia e Medalha de Ouro da Cooperativa de Penafiel e Medalha de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses. A Justino foi atribuída, a título póstumo, em 2008, a Medalha de Ouro do Município, menos de um ano após a sua morte ocorrida a 13 de julho de 2007.

“A atribuição foi tardia. Não tenho problemas em afirmá-lo, mas as coisas são assim. Uma coisa é homenagear uma pessoa em vida, outra bem diferente é depois de morto ou entregar a distinção à família”, lamenta António do Fundo, filho do antigo presidente da Câmara.

Recordando o pai, acrescenta: “Era uma pessoa humana, vivia muito para a família e para os amigos. Tinha um amor incondicional a Penafiel. Dizia que era a melhor terra do mundo”.

Mas o percurso político de Justino ficou marcado pela polémica e mediática mudança, em termos de candidatura autárquica, no final de 1993, do PS para o PSD, três mandatos depois de ter sido eleito em listas socialistas. Vivia-se então o período das maiorias absolutas de Cavaco Silva.

“O meu partido é Penafiel”, alegou à data, apesar da polémica.

Nas disputadíssimas autárquicas daquele ano, liderando uma lista do PSD, foi derrotado pelo seu ex-número dois no executivo, com o qual se incompatibilizara.

Ainda se candidatou mais duas vezes, uma pelo CDS, em 1997, e outra como independente, em 2001, mas nunca conseguiu recuperar o cargo que almejava.

Voltar atrás