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Lajes do Pico adaptou-se ao fim da caça à baleia e agora faz vida a ver cetáceos

Ao largo da vila das Lajes do Pico, Açores, foi caçado, em 1987, o último cachalote em Portugal, mas passados quase 30 anos, muitos barcos continuam a sair para o mar à procura de baleias, embora só para ver.

A vila baleeira, como também ficou conhecida, soube adaptar-se às novas realidades e trocou a caça à baleia, atividade que tinha grande expressão no concelho, mas que já estava em declínio, pela observação de baleias e golfinhos, uma atividade turística em expansão no arquipélago.

“Hoje em dia, ganha-se mais a fotografar ou observar as baleias, do que algum dia se ganhou com a caça à baleia”, afirma à agência Lusa Manuel Costa Júnior, diretor do Museu dos Baleeiros, um espaço construído na vila das Lajes a partir de antigas casas dos botes (os barcos à vela e a remos que eram utilizados na caça à baleia).

A transição entre a caça e a observação de baleias não foi fácil nem pacífica, mas surgiu quase por acaso, pela mão de um francês, Serge Viallelle, que, numa das suas visitas aos Açores, ficou encantando com a “impressionante” comunidade de cetáceos existentes no arquipélago.

Segundo Manuel Costa Júnior, as rotas migratórias dos cachalotes (a espécie de baleia mais comum nos Açores) passam exatamente junto à costa sul do Pico, onde está situado o concelho das Lajes, com apenas 1.800 habitantes.

Aqueles mamíferos gigantes passam tão próximo da costa, na sua travessia pelos mares dos Açores, que é possível, em muitos locais, com um simples par de binóculos, avistá-los a partir de terra.

Aproveitando essa proximidade, muitos homens do Pico iniciaram-se na atividade da caça à baleia, que surgiu nos finais do século XVIII, pela mão de baleeiros da América do Norte.

Foram construídas, sobretudo ao longo da costa sul do Pico, e também da vizinha ilha do Faial, várias “vigias”, a partir de onde os homens vigiavam as baleias.

Sempre que era avistado um cachalote, o vigia (nome pelo qual também era conhecido o homem que se dedicava a espreitar as baleias), lançava um foguete para alertar os companheiros, que abandonavam as lides da terra e corriam em direção ao porto, para arrear o bote baleeiro e perseguir o animal.

“Nós gostávamos daquilo, mas era uma atividade perigosa”, recorda António José Silveira, antigo baleeiro da Calheta de Nesquim, uma das freguesias do concelho das Lajes que se dedicou à caça à baleia.

Então, quase toda a população da ilha vivia da agricultura ou das pescas, sendo que a atividade da baleação era praticamente a única que pagava em “dinheiro vivo”.

“As pessoas iam para a caça porque era uma forma complementar de ganhar dinheiro”, lembra António José Silveira, de 77 anos, que saiu pela primeira vez para o mar, a bordo de lancha da baleia, com apenas 6 anos, pela mão de um tio.

A caça à baleia e a indústria de transformação dos produtos derivados do cachalote (óleos, farinhas e dentes) fizeram destas atividades das mais importantes da ilha durante quase dois séculos.

Mas, nos anos 50 do século XX, houve uma outra atividade, a pesca do atum, que provocou uma grande “debandada” entre as tripulações das armações baleeiras, entretanto instaladas no Pico.

A emigração de milhares de açorianos para os Estados Unidos e para o Canadá, nas décadas seguintes, fez com que o ciclo económico da caça à baleia já estivesse quase “moribundo” quando, em 1987, Portugal decide juntar-se aos países que proibiram esta atividade.

Procurando recuperar grande parte do património baleeiro espalhado pelo concelho, é inaugurado em 1988 o Museu dos Baleeiros, que recebe anualmente mais de 23 mil visitantes.

“Esta é uma espécie de casa do povo, onde o homem do mar, o baleeiro, o marítimo, o homem da cabotagem, o homem da pesca do atum se identifica com o espaço. Eles entram aqui como se entrassem na sua própria casa”, refere o responsável pelo museu.

Foi este “apelo” que sentiu, também, o empresário francês Serge Viallelle quando decidiu lançar, em 1990, o primeiro projeto de observação de cetáceos dos Açores e que se destinava ao estudo, proteção do meio marinho e educação ambiental.

O projeto teve de tal forma êxito que Serge acabou por adquirir algumas vigias da baleia e casas perto do museu, onde instalou, em 1995, a primeira empresa de observação de baleias e golfinhos nos Açores.

A proximidade entre o Museu dos Baleeiros e as empresas que entretanto se instalaram na vila das Lajes, e que se dedicam ao ‘whale watcing’, acaba por funcionar como o “estímulo recíproco”, no entender de Manuel Costa Júnior.

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