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A longa batalha de Baião contra a desertificação

Baião dista do Porto apenas 70 quilómetros, mas trava há décadas uma luta contra a perda de população, apesar dos milhões investidos em infraestruturas e equipamentos e o recente ‘boom’ no turismo.

Desde 1960, o concelho mais interior do distrito do Porto, conhecido pelas suas paisagens junto ao rio Douro ou das serras do Marão e Aboboreira, perdeu quase 30% dos habitantes e viu o número de pessoas com menos de 14 anos diminuir de forma acentuada, em contraste com o aumento do número de residentes com mais de 65 anos, que já representam quase 30% da população.

Em 2011, viviam em Baião, segundo o Censos desse ano, 20.522 pessoas, menos 8.342 do que em 1960, sendo assim o único concelho do distrito que perdeu residentes no último meio século.

Para Artur Borges, que foi presidente da Câmara 11 anos, até 1993, a fuga das pessoas para os grandes centros urbanos portugueses deveu-se ao isolamento que o concelho enfrentou durante décadas.

“Éramos uma zona cinzenta, com os piores indicadores até de analfabetismo e abandono escolar. Estávamos encravados, porque não havia acessos rodoviários”, recorda o antigo autarca, afirmando que só em 1979, com a Lei das Finanças Locais, e mais tarde com a entrada da CEE e os apoios estruturais, é que foi possível melhorar a situação.

Numa primeira fase, conta, investiu-se no alargamento de estradas e caminhos para melhorar as acessibilidades no interior de um concelho com uma orografia muito acidentada. Depois vieram as novas estradas, ligando a outros concelhos e aproximando Baião das grandes vias de comunicação e do litoral industrializado.

Antes das novas acessibilidades, chegar ao Porto demorava quase duas horas, atualmente a mesma distância cumpre-se em menos de metade.

A explosão económica dos anos 80 e 90 do século passado foi, para Artur Borges, uma fase que retirou muitos jovens do concelho, sobretudo da área da construção, que partiram à procura de uma vida melhor nas grandes cidades.

“Muitos deles nunca mais voltaram”, sublinha.

A recente crise acentuou o fluxo migratório, desta feita para fora do país.

“Hoje, apesar de todo o esforço do Município, há um retrocesso evidente”, lamenta Artur Borges

Também a melhoria académica da população, nomeadamente de jovens que estudaram nas universidades do litoral, acabou por acentuar o problema da fuga de pessoas.

Apesar disso, as últimas décadas também trouxeram dados positivos, sobretudo ao nível da qualificação das pessoas. Em 1960, havia mais de 6.000 analfabetos e, em 2011, esse número tinha baixado para 1.981, fruto de um investimento maciço na construção de escolas dos vários graus de ensino e de políticas locais e nacionais de combate ao abandono escolar.

Em consequência, o número de cidadãos licenciados aumentou muito, assim como o número de médicos por habitante e equipamentos de assistência aos idosos.

O poder de compra recuperou dos 21,8% da média nacional, em 1993, para os quase 60% em 2013, mas ainda longe dos indicadores dos concelhos vizinhos de Amarante ou Marco de Canaveses.

Na economia, o concelho viu desaparecer, nos últimos anos, centenas de postos de trabalho com a crise no setor da construção, que absorvia grande parte da mão-de-obra.

No entanto, como destaca o atual presidente da Câmara, Paulo Pereira, a abertura de duas unidades hoteleiras de quatro e cinco estrelas e vários projetos ligados ao agroturismo, sobretudo vitivinicultura e artesanato, tem permitido a Baião apresentar indicadores positivos nos últimos anos, frisando que o emprego é fundamental para fixar a população.

Os festivais de fumeiro e do anho assado, organizados pela autarquia há vários anos, têm ajudado a animar a pequena economia, não só nos dias dos eventos, que atraem dezenas de milhares de forasteiros, mas ao longo de todo o ano.

O autarca atual não se cansa de repetir que a pequena economia do alojamento rural e turismo de natureza, do fumeiro, do vinho verde, dos doces regionais, das compotas, da laranja da Pala e do artesanato têm garantido novos negócios familiares geradores de dezenas de postos de trabalho, um pouco por todo o concelho, incluindo muitos jovens.

A dinâmica, diz, também reflete a aposta da Câmara na promoção da imagem de um concelho com potencial turístico que vale a pena visitar. “Acredito, em suma, que Baião é um concelho com viabilidade”, afirma.

Artur Borges concorda com o atual presidente quanto à aposta estrutural naqueles setores para suportar o desenvolvimento económico e estancar a desertificação, o que também é assinalado num estudo estratégico da Universidade do Porto, realizado por iniciativa da Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa.

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