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Lourinhã, a “Capital dos Dinossauros”

A Lourinhã, conhecida como “Capital dos Dinossauros”, projetou-se como um dos locais paleontológicos mais ricos do mundo após o achado, em 1993, de um ninho de dinossauros, o maior e com os mais antigos embriões até então encontrados.

Na paleontologia “há um antes e um depois da Lourinhã”, afirma à agência Lusa Octávio Mateus, paleontólogo do Museu do Grupo de Etnografia e Arqueologia da Lourinhã, que diz, rindo, ter “nascido dentro de um ninho de dinossauros”, já que desde os quatro anos acompanhava os pais, Isabel e Horário Mateus, dois dos fundadores e voluntários daquela estrutura museológica, na prospeção e escavação de achados.

O também autor do artigo científico que validou, em 1997, a descoberta feita quatro anos antes, explica que até agora já foram encontradas no concelho “muitas espécies, bem conservadas e únicas”, o que faz da Lourinhã um dos dez locais mais ricos do mundo em fósseis de dinossauro do Jurássico Superior, com 150 milhões de anos.

Conhecida até ao final da década de 80 do século passado por ter como principal traço identitário as potencialidades hortícolas, a Lourinhã passou, a partir de 2003, a ser conhecida como a “Capital dos Dinossauros”.

Não só o museu, onde os achados estão expostos, passou a receber visitantes de todo o país e do estrangeiro (cerca de 25 mil por ano), como também essa importância paleontológica passou a ser reconhecida ao circular pela vila.

Existem negócios que adotaram nomes juntando o prefixo “dino”, réplicas de dinossauros em tamanho real em rotundas, dinossauros em estabelecimentos comerciais e jardins, um percurso pedestre designado “rota dos dinossauros” e até uma réplica de uma perna de dinossauro numa pastelaria.

Duas décadas passadas, Isabel Mateus sente-se hoje “como se tivesse chocado” a galinha dos ovos de ouro, mas também os próprios ovos de dinossauro carnívoro terópode, já que as primeiras cascas de ovos daquele ninho foram descobertas por si em 1993, nas arribas da praia de Paimogo, numa das saídas para procurar fósseis.

Entre 1994 e 1997, viria a participar nas escavações do que veio a descobrir-se ser um ninho com cascas dispersas por 11 metros de diâmetro, onde há 150 milhões de anos várias fêmeas terão postado e chocado mais de uma centena de ovos.

“Nessa altura, já tínhamos descoberto três ovos de dinossauro na Peralta. Em Paimogo, fizemos prospeção e encontrámos logo mais cascas e mais ovos”, conta, dando a noção da facilidade que havia em encontrar fósseis de dinossauros nas arribas jurássicas, cujos solos não tinham sido ocupados nem alterados, ao contrário de outras zonas.

“À medida que escavávamos, íamos encontrando mais ovos e íamo-nos apercebendo da importância do achado. Pela quantidade de ovos, só podia ser uma descoberta muito importante”, recorda Isabel Mateus.

Em 1997, em conjunto com Horário Mateus, Octávio Mateus, Vasco Ribeiro e com os paleontólogos Miguel Telles Antunes, da Universidade Nova de Lisboa, e Philippe Taquet, diretor do Laboratório de Paleontologia do Museu Nacional de História Natural em Paris, assina o artigo científico de validação do achado paleontológico, que foi o primeiro a ser notícia em Portugal e que colocou a Lourinhã nos jornais e televisões internacionais.

Nesse ano, foi considerada uma das cem descobertas mais importantes do mundo pela revista norte-americana Discovery.

Isabel Mateus não tem dúvidas de que “foi o ninho de dinossauros que projetou a Lourinhã”, opinião também partilhada pelo filho.

“Na altura, eram conhecidos achados de ovos de dinossauro aqui e ali, sobretudo na China e Estados Unidos da América, mas quase tudo do Cretácico [mais recente]. Do Jurássico eram mais raros. Quando aparece um ninho, do Jurássico, com embriões, com aquela dimensão e de dinossauro carnívoro, era completamente único. Era o ninho mais antigo do mundo e o primeiro da Europa com embriões, o que marcou a relevância que estes ovos tinham”, explica Octávio Mateus, agora investigador e professor de paleontologia da Universidade Nova de Lisboa.

Antes do ninho, já os investigadores do Museu da Lourinhã tinham encontrado, nas arribas da Peralta, outra das praias do concelho, fósseis (pescoço, coluna, vértebras e parte dos membros) de exemplares de dinossauro carnívoro terópode, datados de há 152 milhões de anos.

Os estudos vieram a confirmar tratar-se de uma nova espécie e, por ter sido descoberta na Lourinhã, veio a receber o nome de “Lourinhanosaurus antunesi”.

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