Fechar
Abrir

Luta da Pereira Roldão projeta “resistência” dos vidreiros da Marinha Grande

Os trabalhadores da vidreira Manuel Pereira Roldão, na Marinha Grande abriram, durante um mês, no final de 1994, os telejornais com a luta contra os salários em atraso ou a carga policial sofrida e ainda hoje lembrada pela população.

Passados quase 22 anos, a sindicalista Etelvina Rosa emociona-se quando recorda aquele período, que considera “difícil, mas ao mesmo tempo bonito”, tendo em conta a onda de “solidariedade que se criou à volta dos trabalhadores”.

“Passámos o Natal e o Ano Novo juntos. Sentir que a população saiu de sua casa para entregar comida a quem estava ali foi algo inesquecível. Foi um sentimento único que ainda hoje guardamos e é difícil de transmitir”, recorda à agência Lusa.

Etelvina Rosa adianta que a Manuel Pereira Roldão era uma empresa próspera. No pós-25 de Abril, “os patrões abandonaram a empresa e os trabalhadores assumiram-na durante cinco anos”.

O facto de estarem unidos pelo mesmo fim “criou laços solidários pouco comuns” entre todos. “No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a empresa estava em expansão. Noventa e cinco por cento dos produtos eram para exportação. Produzíamos vidro de cor e com um ‘design’ diferente. Tínhamos uma boa carteira de clientes”, conta.

No entanto, “por má gestão”, “deixaram de pagar salários, o que envolveu os trabalhadores numa luta de rua e institucional”, pois todos tentaram junto de várias entidades governativas que a “empresa não fechasse”.

O protesto dos vidreiros envolveu o corte de estradas e da linha férrea e levou à retenção dos administradores da Manuel Pereira Roldão nas instalações da própria empresa. A polícia foi chamada ao local e protagonizou uma “das cargas policiais mais brutais que alguma vez foi vista” no país, diz a dirigente do sindicato vidreiro.

Alguns operários tentaram refugiar-se no edifício da Câmara Municipal, mas foi difícil fugir às bastonadas, que ficaram registadas pelas câmaras de televisão e foram difundidas por todo o país.

Para Etelvina Rosa, a ordem terá partido “de cima” e foi uma prova de que “não reconheceram a legitimidade do grito de revolta de mais de 300 trabalhadores, que iriam para a rua”.

“Isso criou uma campanha solidária de todo o povo marinhense que nunca se tinha visto. Mesmo a nível nacional, houve solidariedade de vários concelhos que contribuíram para que os trabalhadores continuassem a laborar, impedindo o forno de se apagar”, diz Etelvina Rosa.

As peças produzidas no forno eram depois vendidas ao público na rua para angariar dinheiro. “Tentou-se por todos os meios que a empresa não encerrasse”. Foi um tempo único, mas “infelizmente, não foi possível manter a empresa”, lamenta.

O socialista Álvaro Órfão, presidente da Câmara da Marinha Grande na altura, recorda que a polícia justificou a carga policial como forma de “proteger o presidente”, o que “era mentira”, pois, nesse dia, “estava numa reunião em Lisboa”.

“Deram porrada a um padre, à porta da igreja, a jornalistas e até a um mudo que ia entrar na farmácia”, lamenta o ex-autarca, garantindo que desde a primeira hora que a Câmara se colocou ao lado dos trabalhadores.

Segundo o ex-presidente, “através da Caixa Geral de Depósitos foi possível hipotecar um terreno da Câmara por 74 mil contos, permitindo assim pagar os salários aos trabalhadores e o combustível”. A fábrica voltou a laborar e a autarquia nomeou um administrador.

Álvaro Órfão conta ainda que reuniu com Mário Soares, na altura Presidente da República, com o secretário-geral do PS, António Guterres, e com o secretário de Estado da Administração Interna, Carlos Assunção, para tentar ajudar a luta dos trabalhadores e impedir novas cargas policiais.

“Um facto curioso foi que na semana dos grandes acontecimentos, o primeiro-ministro Cavaco Silva não realizou a reunião habitual das quintas-feiras com o Presidente da República ‘por falta de assunto na agenda’”, recorda Álvaro Órfão.

Voltar atrás