Fechar
Abrir

Maçã impulsiona economia e rejuvenesce agricultura de Carrazeda de Ansiães

A agricultura é o sustento da população de Carrazeda de Ansiães, com a diversidade de culturas do vale do Douro e um planalto que ganhou visibilidade com uma singular expansão da produção de maçã em terras transmontanas.

Há 30 anos, eram pouco mais de “uma dúzia” os produtores deste fruto, com 100 hectares de pomares. Hoje são perto de 60 e a produção estende-se por 800 hectares, muitos dos quais de pomares novos, resultado de investimentos de jovens agricultores com um novo impulso para a economia local e rejuvenescimento da agricultura.

A maçã é o que distingue este concelho do distrito de Bragança e o fruto distingue-se de outras variedades portuguesas, segundo os produtores, pelas características que lhe conferem os cerca de 700 metros de altitude do Planalto de Carrazeda de Ansiães, com “paladar, textura e teor de açúcares diferentes”.

A aposta na produção começou no início da década de 1990, mas os últimos anos foram os de maior expansão, como diz António Augusto Nascimento, gerente da Frucar, organização de produtores criada há mais de 20 anos para a recolha e comercialização.

Muitas das novas instalações devem-se à passagem das explorações de pais para filhos e à chegada ao setor de pessoas de outras atividades, como a construção civil, ou jovens recém-licenciados que não encontraram trabalho na área de formação.

O concelho tem potencial instalado para 15 mil toneladas por ano e os novos pomares deverão estar a produzir em pleno dentro de dois anos.

José Martins, de 33 anos, instalou-se por conta própria em 2011. O pai e o irmão já tinham pomares de maçã e a família vivia da agricultura, o que o levou a escolher um curso superior vocacionado para esta área.

“Toda a agricultura é ingrata”, salienta à agência Lusa, referindo-se à sua vulnerabilidade, decorrente das intempéries, como a queda de granizo, que causam acentuadas quebras nas produções.

Porém, “a não ser esses fatores externos”, José afiança que a maçã “é um setor mais ou menos rentável” e espera em breve colher 1.100 toneladas nos pomares que plantou.

A comercialização “é mais fácil”, porque está associado à Frucar.

Rui Barata, de 45 anos, tem um percurso idêntico e há 23 anos que é agricultor e produtor de maçã.

“Havia uma série de culturas que não via com grandes perspetivas, como o cereal, a batata, o vinho. Optei por começar a investir na fruticultura”, conta, adiantando que em 1995 colheu sete toneladas de maçã. De então para cá, já chegou às 600 e tem potencial instalado (novos pomares) para mil toneladas.

O produtor salienta, no entanto, “os investimentos muito elevados, na ordem de um milhão de euros” e os custos com os fatores de produção a aumentarem e o preço pago pela maçã ao produtor cada vez mais baixo, na ordem dos 20 a 25 cêntimos por quilo. “Vendem-se maçãs hoje mais baratas que em 1990”, aponta.

Os produtores dizem, no entanto, que o crescimento da produção é necessário porque o país é deficitário, não havendo problemas de escoamento do produto. As grandes superfícies nacionais absorvem cerca de 80% e as portas da exportação começam a abrir-se.

O concelho começa, entretanto, a enfrentar a falta capacidade para recolher e conservar a maçã.

A Frucar é a única organização de produtores do concelho que reúne estas condições, mas “já não tem capacidade para servir os próprios sócios, que já têm produções superiores às cinco mil toneladas que consegue guardar em frio para comercializar durante todo o ano”, indica o gerente António Augusto Nascimento.

“A produção é três vezes superior”, enfatiza o responsável pela organização de 18 produtores, num concelho onde são já perto de 60 os investidores nesta produção.

Com o potencial existente, este dirigente e produtor defende que, “se houvesse outra mentalidade por parte dos agricultores, poderia haver mais valorização”. A solução passará por aumentar a capacidade da atual organização ou surgirem outras, mas sempre pela associação dos produtores.

António Augusto aponta, ainda, outras dificuldades com que o setor tem de lidar, como a falta de água devido às alterações climatéricas e a falta de mão-de-obra.

Num concelho com pouco mais de seis mil habitantes, a maioria idosos, e que perdeu quase metade da população nas últimas décadas, “não é fácil encontrar” gente para trabalhar, pelo que o recurso a mão-de-obra estrangeira tem sido a solução.

Voltar atrás