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Mar abraça história e tragédia em Vila do Conde

A ligação de Vila do Conde ao mar e às atividades marítimas marca, há séculos, a história deste concelho, provocando uma estranha dicotomia entre a sua riqueza patrimonial e cultural e os naufrágios, nomeadamente na comunidade de Caxinas.

O mesmo oceano que potencia diferentes setores da atividade económica do concelho, alavancando uma história rica em usos e costumes, é também aquele que, frequentemente, é alvo da ira e da revolta dos vila-condenses quando retira vidas aos seus pescadores.

É com este sentimento ambíguo em relação ao mar que Vila do Conde se desenvolveu nas últimas três décadas, recuperando, por um lado, o património urbano e cultural da zona ribeirinha da cidade e, ao mesmo tempo, lidando com as tragédias marítimas da maior comunidade piscatória do país.

“Temos feito um grande esforço para recuperar as marcas de identidade da nossa gente, ligadas quer à pesca quer a outras atividades do nosso envolvimento marítimo. São especificidades que nos distinguem de outras populações do país”, explica Elisa Ferraz, presidente da Câmara de Vila do Conde.

A autarca vinca o trabalho feito para “manter viva a memória sobre o património cultural e científico da participação, na época quinhentista, na epopeia da expansão e dos Descobrimentos, onde Vila do Conde esteve presente, de forma ativa, com a sua construção naval em madeira”.

“É algo único, genuíno e identitário e quisemos dar-lhe força com a requalificação de toda a zona ribeirinha da cidade, com a construção da réplica fiel da nau quinhentista, e com a requalificação da alfândega régia”, diz a autarca.

Elisa Ferraz pretende que esse trabalho seja agora completado com um novo desafio: uma candidatura à UNESCO que promova todo o enquadramento histórico de Vila de Conde.

“Já fizemos a inscrição da nossa técnica de construção de embarcações em madeira a património nacional e agora estamos a trabalhar numa [candidatura]internacional, junto da UNESCO, para que seja considerada património imaterial da humanidade”, explica.

A presidente de Câmara diz acreditar que esse passo irá ter, também, um impacto na economia do concelho, sobretudo no setor turístico, outro dos vetores estratégicos do desenvolvimento do município.

“Temos condições naturais fantásticas na nossa cidade, com uma conjugação entre o mar e o rio, a que queremos juntar todo esse património cultural e histórico para que as pessoas possam, em Vila do Conde, usufruir de uma experiência completa de lazer e conhecimento”, aponta Elvira Ferreira.

Enquanto esse caminho continua a ser traçado, a economia local mantém na pesca um dos seus maiores pilares.

Mas, se por um lado é a relação com o Atlântico que sustenta muitas famílias, é também por causa do mar que, nos últimos anos, Vila do Conde e a sua localidade de Caxinas têm sido motivo de notícias pelos piores motivos.

“Apesar de toda a evolução das condições de segurança das nossas embarcações, a luta continua a ser muito desigual e, em condições adversas, ficamos sempre a perder perante um mar cuja força nos ultrapassa”, desabafa a presidente de Câmara.

Nos últimos 30 anos, dezenas de naufrágios ensombraram a comunidade local, mas tal não tolheu a forte ligação e tradição piscatória, que continua a ser o caminho seguido pelas gerações mais jovens de vila-condenses.

“Embora a frequência de naufrágios continue a ser excessiva, há um grande trabalho feito pelas associações locais para munirem as novas gerações de ensinamentos e condições de segurança que possam fazer face a esses acontecimentos. Creio que estamos a dar passos mais firmes na preparação dos nossos pescadores”, conclui Elisa Ferraz.

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