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Mértola, a “vila museu” que se “agarrou” à herança histórica para atrair turistas

A riqueza do património histórico e arqueológico levou Mértola, no Alentejo, a “agarrar-se” às heranças do passado como “poderoso fator de desenvolvimento” e a transformar-se numa “vila museu”, que, anualmente, atrai mais de 100 mil turistas.

“A vila tem um passado muito rico e importante e um património histórico e arqueológico de relevância nacional e internacional e que é um poderoso fator para o desenvolvimento do concelho”, diz à agência Lusa Jorge Rosa, presidente da Câmara de Mértola, no distrito de Beja.

Por isso, o município e o Campo Arqueológico de Mértola (CAM), fundado pelo arqueólogo Cláudio Torres, lançaram, em 1978, o projeto “Mértola Vila Museu”, baseado numa estratégia de desenvolvimento e promoção turística assente na valorização do património histórico e arqueológico, explica.

Desde então, diz, a autarquia e o CAM têm apostado em estudar, divulgar, conservar e musealizar achados descobertos nas muitas intervenções patrimoniais e arqueológicas realizadas na vila ao longo dos últimos 30 anos.

Segundo o município, a “excecionalidade” dos achados arqueológicos de Mértola originaram publicações científicas, que “projetaram a imagem da vila no mundo académico e científico”, e projetos de musealização, que permitiram atrair “um fluxo contínuo de visitantes”.

A localidade tem “cerca 1.500 habitantes” e recebe, por ano, “quase 115.000 visitantes”, uma relação de um habitante para mais de 75 turistas, “muito pouco usual a nível nacional e internacional”, indica Jorge Rosa.

Para Cláudio Torres, arqueólogo e diretor do CAM, a vila está “definida pela sua riqueza histórica, pela qualidade dos seus museus, pelo orgulho que têm os habitantes relativamente ao passado” e o projeto ‘Mértola Vila Museu’ “venceu claramente, conseguindo marcar o futuro desenvolvimento do concelho e da região”.

Cláudio Torres, galardoado com o Prémio Pessoa 1991, conta à agência Lusa que tudo começou em 1978, quando alunos de cadeiras que lecionava no curso de História da Faculdade de Letras de Lisboa começaram a organizar programas de investigação e estágios para férias e fins de semana fora da universidade e Mértola “começou a ser o local escolhido e não foi por acaso”.

Além de a vila ser “sítio excecional pela riqueza histórica e arqueológica”, um dos alunos de Cláudio Torres, António Serrão Martins, que tinha sido eleito o primeiro presidente da Câmara de Mértola em 1976, “garantia a logística mínima aos seus colegas e participava com entusiasmo nas iniciativas”.

“Foi assim que começou a ser desenhado o conceito de desenvolvimento local através da cultura, que viria a tornar-se a base e a justificação do projeto ´Mértola Vila Museu`”, explica.

O município assumiu em 2014 a tutela do Museu de Mértola, que, atualmente, tem 14 núcleos, 11 situados na vila e a maioria criados para preservar achados arqueológicos e edifícios emblemáticos no centro histórico e os restantes em três localidades do concelho.

Dos 11 núcleos situados na vila, destaca-se a Igreja Matriz, antiga mesquita, e o castelo, classificados como monumentos nacionais e que foram os mais visitados em 2015.

Segundo a autarquia, “o esforço de salvaguarda e valorização do património e a expectativa de gerar novos fluxos de visitantes” levou o município a iniciar, em 2015, a candidatura do centro histórico de Mértola à classificação de Património da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

A herança árabe de Mértola, que, nos séculos XI e XII, foi capital de um reino islâmico e um importante porto comercial nas rotas do Mediterrâneo, levou a autarquia a criar, em 2001, o Festival Islâmico.

O festival, que decorre bianualmente, durante quatro dias, em maio, é o “evento com maior relevância para o turismo do concelho” e atrai cerca de 40 mil visitantes nacionais e estrangeiros.

O turismo em Mértola “assenta primeiramente no conjunto de alto valor histórico e patrimonial” do centro histórico, mas também no antigo complexo e na praia fluvial de Mina de S. Domingos e na “envolvente natural e paisagística do concelho”, que é atravessado pelo rio e está situado no Parque Natural do Vale do Guadiana, o que trouxe “novas atratividades associadas ao turismo de natureza”.

Por isso, refere o autarca, nos últimos anos, além do turismo cultural, a Câmara tem apostado noutros produtos turísticos com “elevado potencial” para o desenvolvimento do concelho, nomeadamente os turismos cinegético, náutico e de natureza.

O município reabilitou o antigo complexo mineiro, classificado como Conjunto de Interesse Público, através da criação de um circuito de visita e da manutenção das ruínas, e “edifícios urbanos de relevância cultural e social” na aldeia de Mina de S. Domingos, o que levou ao aumento de visitantes, “em particular no verão”, devido ao afluxo à praia fluvial.

No âmbito do turismo náutico, a autarquia investiu na praia fluvial de Mina de S. Domingos, que é o ponto do concelho “mais visitado no verão”, sobretudo por turistas portugueses e espanhóis.

A praia, que recebe há cinco anos consecutivo a Bandeira Azul, símbolo de qualidade da água e das condições infraestruturais, “caso único no panorama das praias fluviais no Alentejo”, tem uma pista de canoagem para provas e estágios da modalidade.

No caso do turismo cinegético, num concelho com 61 zonas de caça turística, a autarquia criou, em 2009, a Feira da Caça de Mértola, que, em 2015, recebeu 10 mil visitantes, e lançou a estratégia de promoção internacional da marca “Mértola, Capital Nacional da Caça”.

Na área do turismo de natureza, o município criou uma rede de 11 percursos pedestres, tem apostado no produto “birdwatching” (observação de aves) e aderiu ao projeto “Dark Sky® Alqueva” relacionado com o turismo astrológico.

No âmbito da promoção das potencialidades do Guadiana, sobretudo a pesca tradicional e a gastronomia associada, o município criou, em 2002, o Festival do Peixe do Rio, que decorre em março, na aldeia ribeirinha e antigo porto mineiro do Pomarão.

“São todos estes atrativos conjugados que fazem de Mértola o que é hoje e justificam os milhares de visitantes e o desenvolvimento turístico que o concelho tem tido e os contributos de tudo isso para a economia local”, conclui o autarca.

 

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