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Mortágua, de onde saem os cães que ajudam os cegos a ver

Horta tem 4 anos e há dois que saiu da Escola de Cães-Guia para Cegos de Mortágua para ajudar Augusto Hortas a contornar obstáculos e a facilitar o seu dia-a-dia, depois deste ter cegado totalmente aos 16 anos.

Da mesma Escola de Cães-Guia para Cegos, a única do país, já tinham saído a Camila, em 1999, e a Lua, em 2006, que têm permitido ao mesmo utilizador, Augusto Hortas, um modo de vida bem diferente daquele a que estaria sujeito sem a ajuda dos animais.

“Fui o primeiro a receber um cão-guia da Escola de Mortágua. Sempre fui um bom utilizador de bengala, mas depois de ter a primeira cadela-guia, a minha vida passou a ser completamente diferente”, afirma.

Augusto, de 65 anos, com residência em Vila Franca de Xira, explica à agência Lusa que toda a vida teve problemas graves de visão, que o levaram a uma cegueira total quando tinha 16 anos.

“Depois disso tive de fazer uma reabilitação, estudei, licenciei-me em Filosofia e trabalhei até me reformar, como técnico superior do Instituto de Emprego. Em 1998, tive conhecimento deste projeto de cães-guia e candidatei-me”, recorda.

Com a chegada de Camila, no início de 1999, passou a saber o que era andar mais descontraído na rua, “sem o peso da tensão de esbarrar em obstáculos”.

“Foi um sucesso, fiquei tão satisfeito. Passei a ter mais disposição para sair, com mais confiança e segurança, e até em termos de relacionamento é uma mais-valia, porque a presença do cão faz com que as pessoas na rua interajam comigo”, revela.

Ter uma amiga de quatro patas até já permitiu a Augusto Hortas “viajar de férias para o Brasil, passear e fazer turismo, com uma sensação enorme de segurança”.

“Muitas vezes ficamos surpreendidos. Saio com a Horta e digo ‘farmácia’ e ela leva-me até à porta da farmácia ou, se quiser ir ao pão, digo ‘dona Ermelinda’ e ela vai direta à porta dela: tudo isto são coisas para as quais a cadela não foi ensinada, ao nível do treino específico, mas depois connosco vai-se habituando”, explica.

O treino específico a que estes cães são sujeitos, maioritariamente de raça labrador, é longo, passando por duas fases distintas: uma primeira de socialização até completarem um ano, na qual lhes são incutidas regras base numa família de acolhimento. Uma segunda fase, a da educação específica, é ministrada na Escola de Mortágua, até perto do seu segundo ano de vida.

Uma das educadoras da Escola de Mortágua, Marta Ferreira, sublinhou que esta segunda fase depende de cão para cão, mas costuma decorrer entre seis a oito meses.

“O cão treina todos os dias, trabalhando uma média de uma hora por dia. Só na reta final, quando já conhecemos muito bem o cão, é que importa conhecer o candidato, sendo importante escolher o candidato em função do cão que se tem, para que a adaptação da dupla seja mais fácil”, avança.

Numa última fase, o cego é convocado para um estágio de duas semanas, em que na primeira aprende a lidar com o cão, ficando hospedado na Escola de Cães-Guia de Mortágua.

Na segunda semana, o estágio continua em casa do invisual, onde o educador ajuda a fazer a adaptação à habitação e aos trajetos habituais do novo dono.

“Faço este trabalho desde 2004 e é muito gratificante ver as muitas vantagens que traz ao invisual, em termos de mobilidade, que passa a ser mais rápida, segura e cómoda. Traz também imensos benefícios sociais, com o invisual a ficar mais próximo da sociedade e a ter outro tipo de interação: ficam mesmo mais alegres e saem mais de casa graças ao cão”, considera.

Da Escola de Cães-Guia para Cegos de Mortágua, formada oficialmente em 2000, para dar continuidade a um projeto inicial, saem todos os anos 16 ou 17 animais, tendo já sido entregues mais de 180 animais a invisuais de todo o país.

De acordo com o presidente, João Pedro Fonseca, a escola foi crescendo ao longo dos anos, contando atualmente com três educadores e um pré-educador, dois administrativos, um coordenador e uma diretora técnica.

A formação específica ministrada a cada cão-guia tem um custo que ronda os 17.500 euros, sendo depois entregue ao cego a custo zero.

“Tal é possível devido a um acordo atípico que temos com a Segurança Social, que na altura nos garantia quase 90 por cento do nosso orçamento. No entanto, a realidade hoje é outra e só garante 57 por cento. O resto da nossa receita é angariado todos os dias, através dos sócios, empresas, eventos ou venda de ‘merchandising’”, informa.

O responsável revela que têm vindo a solicitar a revisão do acordo com a Segurança Social, uma vez que formam mais duplas do que as 14 protocoladas.

“Não pedimos mais do que fazemos, apenas pedimos que o Estado cumpra a sua obrigação de comparticipar o que produzimos”, assegura.

João Pedro Fonseca aponta, ainda, que a lista de espera para entrega de um cão-guia ronda os três anos, contando com outra limitação que os impede de chegar a mais utilizadores.

“Os cães-guia têm um tempo de vida útil limitado a oito ou dez anos de trabalho: são entregues com cerca de 2 anos de idade e aos 11 ou 12 anos têm de ser reformados. Como os nossos estatutos preveem que os utilizadores tenham privilégio, entrega-se logo outro cão de substituição”, esclarece.

Apesar dos constrangimentos, a Escola de Mortágua tem alguns projetos a curto e médio prazo, que visam alargar a sua ação ao treino de cães de assistência para autistas, não como animal-terapia, em que o técnico treina o cão e vai fazer sessões com a criança, mas enquanto cão que ficará em permanência com a criança autista.

“Este é um projeto que ainda estamos a estudar, mas para já temos em marcha alargar o âmbito da ação dos cães-guia para cegos jovens a partir dos 14 anos. Até agora era só a partir dos 18 anos”, conclui.

 

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